Sociedade Anômica

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Sociedade Anômica

George Orwell anteviu essa realidade em seu livro "1984", apresentando o conceito de "duplipensar"


5 de maio de 2021 - 6h00

Não precisa colocar os óculos. O título não está errado (rsrs)… é sociedade anômica mesmo! Imagine um país onde os empresários, que costumavam cumprir rigorosamente as leis, de repente, mudam seu comportamento e adotam métodos irregulares, sonegando impostos e desrespeitando os compromissos assumidos com seus clientes, colaboradores e parceiros de negócios. Enquanto isso, o governo drena o máximo de recursos da população, via impostos, e nada devolve na forma de serviços que deveriam ser obrigatórios, como saúde, saneamento, educação e segurança. Já viu esse filme? Pois esse é o blockbuster em exibição no Brasil de 2021. Isso acontece numa sociedade sem regras, ou, pelo menos, onde elas não são respeitadas, nem levadas a sério. Prefeituras decidem antecipar vários feriados de 2021 e 2022, na tentativa de estabelecer uma espécie de lockdown, e ninguém respeita. Isso é anomia!

Sociedade anômica também representa um desafio de comunicação (Créditos: Mauro Mora/Unsplash)

O Brasil de 2021 está vivendo em estado de anomia, sem perspectivas e com um grande sentimento de pessimismo diante do que virá. E a anomia contamina a internet e as redes sociais, onde cada um publica a sua própria versão da verdade. Fake news só as dos outros. George Orwell anteviu essa realidade em seu livro “1984”, apresentando o conceito de “duplipensar”, que significa (em sua novilíngua) “manter vivas duas crenças contraditórias e, simultaneamente, aceitar ambas”.

E, feita essa introdução, a pergunta que eu lanço é: como comunicar de forma eficaz para uma sociedade anômica? Vamos a um exemplo concreto, o kit COVID. Trata-se de um coquetel de medicamentos para um suposto tratamento preventivo, constituído por ivermectina, hidroxicloroquina e anticoagulantes. O Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade – ICTQ afirma que “o Ministério da Saúde estuda oferecer o kit COVID de graça para a população”. Enquanto isso, grandes portais publicam matérias chamando a atenção para “o maior risco de morte causado pelo kit COVID”! E aí, quem está certo? O ITQC e o Ministério da Saúde ou os médicos de grandes hospitais, que afirmam que o kit COVID, além de não ajudar em nada, pode até matar? Então, a população chuta o balde e vai para a rua, ignorando todas as recomendações de cuidados com a contaminação e isolamento social, e cai na esbórnia. Isso é anomia!

As marcas precisam estar cientes do comportamento anômico da sociedade brasileira, antes de exporem seus pontos de vista aos seus públicos de interesse. Os riscos da má interpretação e de se tornarem alvo de haters são reais e bastante altos. Por outro lado, não comunicar (o popular ficar em cima do muro), também não é uma opção, porque “os haters odeiam os isentões”! E a saída é…. pela direita ou pela esquerda, você escolhe.

Brincadeiras à parte, existem algumas regrinhas que ajudam as marcas a se comunicarem com seus públicos, evitando o desgaste da polêmica, típica das sociedades anômicas. Nada que o bom senso, intuitivamente, não recomende. Mas sempre é bom relembrar três regrinhas de ouro:

1. Toda marca nos dias de hoje precisa de um propósito e este deve ser verdadeiro e coerente com todas as ações públicas da empresa. Um bom exemplo é o propósito adotado por um grande banco brasileiro, que quer “estimular o poder de transformação das pessoas”, e que, para isso, assumiu um compromisso com a transformação, que vai desde a simplificação dos serviços oferecidos e acessibilidade a projetos sociais, culturais e educacionais;

2. As marcas têm que ser transparentes e sinceras nos seus propósitos. Ao contrário da mulher de César, não basta parecer, tem que ser honesta. E, neste ponto, uma outra multinacional brasileira, da área de cosméticos, é um bom exemplo de transparência de marca. Seu propósito é “oferecer produtos que abracem a relação entre corpo e natureza” e, então, ela garante que seus produtos privilegiam as matérias-primas naturais e utilizam recursos brasileiros de forma sustentável, como a mão de obra formada pelas pessoas que moram nos locais onde os insumos são extraídos e que, geralmente, têm um alto índice de desemprego ou apresentam condições precárias de trabalho;

3. As marcas têm que ser socialmente responsáveis. Se você acha que os exemplos acima só se aplicam a marcas grandes e ricas, conheça o exemplo de uma ótica on-line que vende óculos e lentes de contato no Brasil. O propósito da empresa é que “uma visão saudável é direito de todos”, e, por isso, criou o projeto “Enxergar o mundo”, para levar às pessoas carentes a possibilidade e o acesso à correção visual. O projeto, que tem a parceria de uma ONG, trouxe ao Brasil a tecnologia OneDollarGlasses, que permite produzir óculos de qualidade com custo acessível. Estes óculos são comercializados pela ótica e para cada uma unidade vendida, outra é doada pela empresa.

E então, faz sentido? Basta olhar em volta e você vai perceber que sua marca está cercada de bons e maus exemplos. Portanto, é só escolher o lado, saída pela esquerda ou pela direita. Ideologias à parte, hein!

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