Vacina contra a má reputação

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Vacina contra a má reputação

A pandemia, que fez as farmacêuticas oferecerem soluções para cura da Covid 19 em tempo recorde, tornou-se também oportunidade para o setor reabilitar sua combalida reputação


12 de agosto de 2021 - 6h00

A rapidez com que a indústria farmacêutica tornou possível a vacinação em massa contra a Covid-19 trouxe alívio para a população mundial e, ao mesmo tempo, um sopro de redenção da reputação para o setor. Conforme vários estudos divulgados desde o final do ano passado, a corrida das empresas em busca da vacina tornou a opinião pública condescendente. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da The Harris Poll mostrou que em janeiro de 2020 (início da pandemia), apenas 32% dos entrevistados viam o setor de maneira positiva e ao final de fevereiro de 2021 o percentual tinha praticamente dobrado, chegando a 62%, bem acima da aprovação do governo, setor financeiro e até da mídia.

Antes da pandemia, de acordo com pesquisa Gallup 2019 o setor farmacêutico estava abaixo de todos os outros setores empresariais e até do governo americano, com uma percepção positiva de apenas 27%, o menor percentual registrado em 18 anos.

No Brasil a percepção de confiança e admiração do setor apareceu no Global Pharma Study, realizado pela consultoria dinamarquesa Caliber, sendo o país onde a indústria farmacêutica obteve o maior índice de aprovação, com 82 pontos, 12 pontos acima da média global, numa escala que vai até 100.

Historicamente o setor farmacêutico é acusado por práticas consideradas irregulares para as autoridades e às vezes fatais para pacientes, que têm custado bilhões de dólares em indenizações, multas e acordos judiciais. Mas em meio a uma pandemia quando o mundo precisava desesperadamente de vacinas, e as empresas conseguiram oferecer soluções para cura da Covid 19 em tempo recorde, surgiu a oportunidade para o setor reabilitar sua combalida reputação.

A rapidez com que a indústria farmacêutica tornou possível a vacinação em massa contra a Covid-19 trouxe alívio à população mundial e ajudou a melhorar a reputação do setor (Créditos: RF._.Studio/Pexels)

Apesar da aprovação dos brasileiros manifestada no Global Pharma Study, depoimentos recentes na CPI da Pandemia da Covid 19 no Senado Federal envolve fornecedores de vacinas numa teia de suspeitas. O imunizante que deveria servir para proteger as pessoas da doença tem a marca associada a uma crise política nacional alimentada por denúncias de corrupção e crime de prevaricação.

As empresas foram pródigas em desenvolver vacinas contra os males do coronavírus, mas não estão, elas mesmo, vacinadas contra a má reputação. Para curar esta dor crônica do setor, causada por práticas tantas vezes condenadas pela opinião públicas e tribunais de justiça, bastariam às empresas apenas duas medidas: compliance e comunicação. Compliance é a pedra pétrea da boa reputação porque define a conduta com respeito às obrigações legais, à ética e à governança. Já a comunicação tem que ser fundamentada na transparência com todos os stakeholders, principalmente em questões como precificação, estudos clínicos, relacionamentos com todos os elos do sistema de saúde efeitos colaterais e eventos adversos de medicamentos. Sem isto, a indústria farmacêutica terá apenas paliativos para os baixos níveis de reputação.

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