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De olho na tela

Conceito de um limite de tempo on screen seria cada vez mais subjetivo, segundo análises como a da Dra. Colleen Russo Johnson


24 de agosto de 2021 - 14h00

Desde que a TV entrou em nossas casas e, posteriormente, os computadores, celulares e tablets, o debate sobre a medida ideal do uso dessas tecnologias na nossa rotina é intenso. A discussão percorre todas as idades, e, inevitavelmente, atinge especialmente as crianças e adolescentes, já que estão em fase de desenvolvimento.

Recentemente, aqui no Brasil, vimos o caso da mãe de uma adolescente, influenciadora digital com mais de 2 milhões de seguidores que, preocupada, excluiu o perfil da filha em todas as redes sociais em que ela estava. O debate ganhou fôlego entre pais e profissionais do tema.

É evidente que, para aqueles que nasceram em um ambiente já digital, controlar o uso de redes sociais e das infinitas atrações disponíveis 24h por dia na internet e na televisão é cada vez mais difícil (Créditos: XPS/Unsplash)

Recentemente, li uma matéria do O Globo falando sobre o tema. Fiquei chocada com alguns dados que mostram a força das telas na nossa sociedade. Segundo a AppAnnie, o brasileiro é, no mundo, quem gasta mais tempo usando aplicativos em smartphones: mais de cinco horas por dia. Já o HypeAuditor diz que mais de 40% dos usuários do TikTok no Brasil é de adolescentes, enquanto nos EUA essa parcela é de 25%. Adorei a definição citada pela pesquisadora Anna Bentes, da UFRJ: esses aplicativos possuem mecanismos de “enganchar e engajar”. É exatamente isso o que acontece. Jovens ou não, acabamos presos a esses dispositivos.

Já comentei com vocês que tenho duas filhas e dois enteados. Isso, junto da minha atuação como diretora-geral da Qsaúde, me abre os olhos para o tema de um jeito especial. Precisamos sempre pensar no assunto dosando o que é bom para a saúde e o que é bom para os nossos filhos.

Esse é um tema que pauta conversas constantes na minha casa e com o meu time, inclusive com o diretor médico da Q, Ricardo Casalino. É importante debater como a tecnologia pode se tornar uma ferramenta para a saúde, tanto física quanto mental, e o bem-estar de jovens.

Há pouco, a Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou a sua cartilha sobre o uso de telas na infância. No manual, os profissionais advertem para uma série de condições que podem ser causadas pelo uso excessivo das telas por crianças e adolescentes. Entre eles a dependência digital, transtornos do sono, problemas de saúde mental, sedentarismo, problemas visuais e transtornos posturais.

E traz uma série de orientações, como limitar o tempo de exposição dependendo da idade até os 18 anos, oferecer atividades alternativas, criar regras para o uso de equipamentos e aplicativos digitais, não permitir telas durante refeições e desconectar tudo duas horas antes de dormir.

Por outro lado, a especialista em desenvolvimento infantil Dra. Colleen Russo Johnson, diz, em entrevista para o The New York Times, que não é possível determinar com rigor o que é certo ou errado na questão do uso de telas. Ela reflete que, como as pesquisas não conseguem acompanhar o desenvolvimento tecnológico na mesma velocidade, e como acontece com tudo que é novo, cria-se uma ideia de que é algo ruim e que deve ser temido.

A pesquisadora, contudo, enxerga que a mensagem da proibição é prejudicial para muitos pais que têm o uso destes dispositivos como opção enquanto lidam com a criação e outras responsabilidades. Ela aponta, ainda, que muito do conteúdo disponível nesses aparelhos podem incentivar bons hábitos, como a prática de exercícios, e que existem atividades, como ver um filme, que podem gerar engajamento dos pais com os jovens.

É evidente que, para aqueles que nasceram em um ambiente já digital, controlar o uso de redes sociais e das infinitas atrações disponíveis 24h por dia na internet e na televisão é cada vez mais difícil. Ainda mais neste período em que, com a pandemia de Covid-19, muitas crianças e adolescentes do mundo todo precisaram aderir ao ensino remoto e a presença das telas foi, mais uma vez e mais intensamente, inserida na rotina. Além da educação, a ferramenta foi importante para que houvesse socialização em um momento de recomendação de isolamento social.

Já aqueles de gerações anteriores, acostumados a uma realidade mais analógica, por vezes questionam os prós e contras desse uso constante. Os argumentos para temores são vários e passam pelos riscos de exposição a conteúdos inapropriados, pressões que vêm de redes sociais e a vida vista através de uma realidade virtual.

Começamos a pensar sobre como podemos contribuir com a questão e oferecer o melhor cuidado também nesse tema para jovens e suas famílias. Somos uma empresa voltada para o cuidado contínuo da saúde dos nossos clientes que usa a tecnologia como ferramenta fundamental, e por isso é sempre importante participar de um debate como esse.

Com tudo isso, devo acreditar que a melhor orientação para esse caso, assim como em tantos outros pontos da nossa vida, é ter atenção ao equilíbrio. Perceber que o excesso é prejudicial. Muito tempo em frente de telas pode alienar os jovens da realidade e causar males à saúde.

Da mesma forma, entendendo que as novas gerações nasceram neste ambiente digital, forçar uma saída desse contexto pode gerar isolamento social e que, por muitas vezes, as telas são fontes de informações valiosas. Como pais e profissionais da saúde, precisamos estar atentos e próximos da questão, sempre nos apoiando mutuamente. Incluir essa discussão nos cuidados de crianças e adolescentes é mais uma forma de enriquecer o conceito de saúde do indivíduo em todo seu ciclo de vida.

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