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Women to Watch

Força para sobreviver, coragem para empreender

Número de empreendedoras cresce, mas obstáculos como acesso a financiamento e ambiente de aceleração dominado por homens ainda precisam ser superado

Carolina Huertas
14 de março de 2022 - 6h17

Instituto Rede Mulher Empreendedora (Crédito: Divulgação)

Apesar de representarem 48% dos empreendedores brasileiros, 55% das mulheres ainda abrem seus negócios por necessidade de renda, e mesmo as que escolhem esse caminho por oportunidade encontram obstáculos, como investimento e um mercado de aceleração dominado pelos homens.

Classificado como o sétimo país com o maior número de mulheres empreendedoras pela pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2020 (GEM), realizada pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtvidade (IBPQ), o Brasil possui, hoje, 52 milhões de empreendedores, sendo 30 milhões (48%) mulheres. Em 2009, a pesquisa registrou pela primeira vez a superação da quantidade de líderes mulheres em novos negócios: a cada 100 empreendedores, 53 eram mulheres. Na época, o País tinha 18 milhões de empreendedores e dois anos antes, a taxa era de 40%.

No Mês das Mulheres, Women to Watch destaca nos quadros desta reportagem histórias de cinco mulheres que chamam atenção em diferentes frentes do ecossistema de empreendedorismo brasileiro e um pouco das trajetórias que as levaram a se lançar ao mundo dos negócios próprios.

Mesmo crescente, a realidade do empreendedorismo feminino é de dualidade. Apesar de especialistas afirmarem que investir nas empreendedoras tem efeitos positivos em cadeia na sociedade, já que elas tendem a direcionar os ganhos para a família e a comunidade ao seu redor, além de aumentar o PIB e impulsionar a equidade de gênero, essas mulheres enfrentam desafios diferentes e até mesmo maiores do que os dos homens, como o peso da dupla jornada, dificuldade de acesso a crédito e falta de representatividade no mercado.

“Quando você pergunta para uma mulher por que que ela quer empreender, ela fala muito das motivações ligadas ao propósito. Ela é movida pela causa e isso traz um aspecto positivo ao ambiente empreendedor, além de terem uma visão humana do negócio, o que é valorizado atualmente por todos os grandes pensadores de liderança e de modelos de negócio do futuro. Hoje, todos os movimentos dos ambientes corporativos falam que os líderes devem olhar para o social e as mulheres já têm isso na essência”, comenta Ana Fontes, fundadora do Instituto Rede Mulher Empreendedora (RME).

O RME é a primeira e a maior rede de apoio ao empreendedorismo feminino do Brasil e busca integrar, capacitar e auxiliar a troca de conhecimento entre mulheres que querem ou já empreendem. O projeto nasceu em 2010 como um blog para abordar a questão e, em 2017, tornou-se um instituto com foco na capacitação de mulheres em situação de vulnerabilidade. Ana conta que, naquela época do lançamento do projeto, muitos executivos que já trabalhavam com empreendedorismo a questionavam sobre a necessidade de fazer o recorte de gênero, alegando que não existia diferença entre empreendedores masculinos e femininos.

“Essa foi a primeira grande mudança: conseguimos mostrar que empreender no feminino existia, que havia muitas mulheres fazendo isso, mas ninguém falava sobre o assunto. As pesquisas, em sua maioria, não tinham recorte. Não tínhamos informação sobre as mulheres empreendendo, não tinham todos os dados que temos hoje. A segunda evolução foi as próprias mulheres se entenderem como empreendedoras. O que eu mais ouvia delas era ‘mas eu não sou uma empreendedora, eu tenho um negócio, tenho uma coisinha aqui’, como se aquilo não tivesse tanta importância. Elas próprias também não se entendiam nesse lugar de empreendedoras, como se fosse menor o que estavam fazendo”, revela a empresária.

A questão apontada por Ana está ligada a outro fator relevante do empreendedorismo feminino: os negócios que nascem a partir da necessidade. Os dados da GEM revelam que 55% das empreendedoras criam seus negócios como forma de sobrevivência, pela necessidade de gerar renda. “A maioria das empreendedoras no Brasil são arrimo de família, vendem o almoço para pagar a janta e sustentam a família. Essas empreendedoras realmente precisam de muito impulso. Falta incentivo para que elas saiam desse lugar de sobrevivência e entrem num lugar de mais respiro, para poder ter mais criatividade, tempo para pensar e escalar os seus negócios e ter mais qualidade de vida, porque elas trabalham 24/7 para conseguir fazer o negócio dar certo”, comenta Vivi Duarte, fundadora da consultoria Plano Feminino e do Instituto Plano de Menina e head of connection planning da Meta na América Latina.

A questão, recorrente na história brasileira, principalmente quando se trata de grupos minorizados, foi ainda intensificada pela pandemia. O estudo apontou que, no último ano, a taxa dos empreendedores iniciais alcançou o maior nível da série histórica, saltando de 37,5% para 50,4%. Segundo a organização, o recorde foi puxado pelo grande contingente de pessoas que buscaram uma alternativa de sobrevivência frente à pandemia; 82% alegaram que a motivação para começar um negócio foi a solução encontrada para ganhar a vida em tempos de empregos mais escassos.

“Uma parte dessas mulheres vão empreender porque são empurradas do ambiente corporativo para o do empreendedorismo, já que os ambientes corporativos ainda são muito hostis para elas, especialmente às que são mães. Esse é um motivo de elas serem empurradas e não necessariamente um dia acordarem e falarem ‘eu quero empreender’ ou ‘tenho essa oportunidade de negócio’. Quando você fala das mulheres em geral, especialmente em vulnerabilidade social, o empreender tem a ver com botar comida na mesa; 40% das empreendedoras têm como principal ou única fonte de renda o seu negócio”, explica Ana.

A executiva comenta que existe uma vontade muito grande de que essas mulheres venham para o ambiente empreendedor não apenas movidas pela necessidade, mas também pela oportunidade de criar algo que tenha sentido. É nesse movimento que a RME vem trabalhando e para o qual Ana reforça, também, a importância da criação de políticas públicas e ações de incentivo para esse público.

Nesse caminho, o Itaú criou, há oito anos, o Itaú Mulher Empreendedora. Luciana Nicola, diretora de relações institucionais e sustentabilidade do banco, conta que o projeto trabalha desde o início com organizações que são referências no mercado, como a RME e o Sebrae, a fim de entender as particularidades para além dos dados financeiros. A executiva revela que, inicialmente, o programa foi aberto para clientes do Itaú, já mais estabelecidas financeiramente, mas ao longo do tempo perceberam que o recorte precisava mudar. “Viemos entendendo quais são as mulheres às quais podemos aportar mais valor com o programa. Hoje, temos olhado recortes bem específicos numa faixa de atuação e rendimento menor. No último ciclo que fechamos com a IFC, por exemplo, vamos dar ênfase para mulheres das regiões Norte e Nordeste, especialmente negras e indígenas. Entendemos que esses são locais onde não se vê muitos programas chegando e aí é preciso ter uma função mais afirmativa para o empreendedorismo ser de fato uma janela da oportunidade”, explica Luciana.

O programa impactou mais de 150 mil mulheres somente em 2020, tem 26 mil cadastradas no site do projeto, disponibiliza gratuitamente mais de 800 conteúdos, mais de 630 horas de capacitação e alcançou mais de R$ 1,1 bilhão de captação em tesouraria.

CAPACITAÇÃO E UNIÃO

A capacitação é um ponto de atenção para todos que querem impulsionar o empreendedorismo feminino. Luciana comenta que os dados mostram que o homem, geralmente, vai mais atrás de capacitação e mentoria do que a mulher. Segundo ela, o homem busca essa profissionalização constante, já a mulher costuma ir quando provocada: “Isso não é uma coisa natural da mulher não só porque não há essa cultura de empreendedorismo, mas porque ela tem ‘N’ outros desafios que o homem não tem, como a dupla jornada, na qual normalmente ela é mãe, empreendedora, cuida ainda dos pais, tem que dar conta do próprio filho, da rotina da casa etc. Tudo isso faz com que tenha menos tempo hábil que o homem para correr atrás de mais informação para gestão do seu negócio”, afirma.

Assim como a executiva do Itaú, Ana e Vivi também reforçam a importância da existência de programas de capacitação que auxiliem as mulheres nesse caminho. A Rede Mulher Empreendedora conta hoje com 500 cursos e já impactou mais de 750 mil pessoas. Já o Plano Feminino, de Vivi Duarte, também conta com conteúdos na mesma linha, com workshops de educação financeira, networking, empreendedorismo, autoconhecimento e autoconfiança. Tais entidades funcionam não apenas para o crescimento individual das profissionais, mas também para a construção e o fortalecimento de uma estrutura de empreendedorismo mais fortalecida e madura.

Vejo um potencial muito grande em criarmos cada vez mais conexões, trocas de experiência e expertise. Quanto mais pudermos juntar os nossos negócios e ter mais força, capilaridade e oportunidades de escala, melhor será o resultado. Isso é uma grande oportunidade para o empreendedorismo feminino, porque nós já temos, como mulheres, esse mood de acolhimento, de trabalhar em rede. Para nós é muito mais fácil essa dinâmica. Essa é a grande virada das mulheres, na minha opinião: essa união de uma forma estruturada, montando o seu plano de negócio com mais força, mais forte, robusto, para ser mais competitiva no mercado“, pontua Vivi.

Ana também conta que a dificuldade do networking feminino foi uma das problemáticas encontradas no começo. Ela comenta que a Rede teve dificuldade no início de convencer as mulheres da importância de participar de eventos. “Mostramos para elas que o sucesso ou o fracasso de um negócio depende muito das conexões que a pessoa tem e do quanto quer se fortalecer. Essa integração é muito importante para o negócio dar certo. Na verdade, não é nem porque não elas não sabiam de nada disso, mas porque sempre foi colocado na nossa cabeça que o ambiente de negócios era algo masculino. Lembro de, no início da Rede Mulher Empreendedora, participar dos eventos e estranhar, porque só via homem no meu entorno. Quando comecei a construir os eventos da rede era algo muito gostoso porque víamos outras mulheres. Tentamos criar esse contraponto”, explica.

EM REDE E CONECTADAS

A RME realizou uma pesquisa no começo de 2020, durante o auge da primeira onda da pandemia, e uma das principais preocupações dessas empreendedoras era sobre o que fazer para tornar o seu negócio digital. A resolução deste problema se mostra também como caminho para outra questão apontada pela Rede: a dificuldade de acesso ao mercado, ou seja, como e onde vender o produto ou serviço. Situação que se intensifica ainda mais de acordo com a intensidade da vulnerabilidade e a quantidade dos marcadores sociais. “Se ela é uma mulher, por exemplo, egressa do sistema prisional, se ela é negra, indígena, refugiada, trans, é sempre mais difícil. Quanto mais marcadores sociais, mais difícil é de ter acesso ao mercado”, revela Ana Fontes.

Luciana diz que essa é uma dificuldade que também foi identificada no IME. Em uma das acelerações que a executiva participou, dois projetos de mulheres indígenas buscavam investimentos para conseguir um acesso mais direto ao mercado. “Me impressionou muito o quanto elas estavam sujeitas a intermediadores. Quando eu vi o pitching delas, descobri que faziam bijuterias e o investimento era para ter acesso diretamente a mercados para venda. Porque o intermediador vai lá, compra aquilo num valor muito pequeno e ganha muito em cima para revender no mercado. Ou seja, ele coloca pouco valor no empreendimento local e acaba ficando com grande parte do ganho”, exemplifica.

Para Vivi, as plataformas digitais se mostram como um dos caminhos para essa questão, sendo grandes aliadas e cúmplices das empreendedoras, já que nas redes sociais elas conseguem “vender seu peixe” e construir sua marca. A própria executiva construiu sua marca e fez networking por meio de canais digitais. “Eu stalkeava, buscava e-mails, nomes, procurava no Facebook, adicionava, chamava para um café. Também usei as redes sociais para construir minha marca pessoal, para contar sobre mim, sobre os meus negócios, criar conteúdos interessantes que tinham a ver com meu ecossistema. As redes sociais são grandes aliadas e cada vez mais é importante as empreendedoras aprenderem sobre essas ferramentas, fazer com que as pessoas consigam entender o que você está fazendo, para onde você está se movendo e ganhar também cúmplices além de seguidores”, diz.

Investindo para combater esse ponto fraco, o projeto do Itaú também busca esse olhar. Segundo Luciana, a organização realizou uma aceleração para mulheres negras no Rio Grande do Norte, em parceria com o Sebrae e a Black Rocks, em que, no final, 47% das empresas participantes tiveram um aumento na visibilidade do negócio e 79% consideraram ter evoluído muito no uso das tecnologias. “Foram quatro meses de mentoria, focando na promoção da digitalização dessas empresas. Para quem não tem muita intimidade com o meio digital também não é simples, porque é preciso entender em qual plataforma ela pode vender de forma mais segura, como ativar a comunicação nesse ambiente e como chegar ao seu mercado”, explica.

 A SOLIDÃO DO TOPO

Mesmo as empreendedoras que escolhem esse caminho por oportunidade também não encontram um cenário mais fácil. Há obstáculos e solidão para as mulheres que fazem parte do empreendedorismo de grande escala. A Endeavor, comunidade global de empreendedores que apoia scale-ups, empresas que crescem aceleradamente, nota essa dificuldade. Apesar de esses negócios representarem um percentual muito pequeno da totalidade de empresas do Brasil, são elas que geram a maior parte dos novos postos de trabalho a cada ano. Mas ao olhar para características dos fundadores, as mulheres ainda estão muito pouco representadas no ecossistema de inovação. “Apenas 9,4% são fundadas exclusivamente por mulheres e 1,4% são cofundadas por mulheres, ou seja, quase 90% dessas empresas são compostas apenas por fundadores homens. O número de empresas lideradas por homens é vinte e uma vezes maior do que as lideradas por mulheres. E estas ainda são jovens, já que 66% das que têm fundadoras mulheres foram fundadas nos últimos cinco anos”, comenta Maria Fernanda Musa, diretora de aceleração de negócios na Endeavor Brasil.

A executiva conta que essas mulheres já têm um amplo conhecimento do mercado no qual atuam e, em geral, já tinham trabalhado com ele ou até mesmo empreendido anteriormente. Porém, o recorte de características é visível: não há diversidade no perfil das fundadoras. As pesquisas da organização revelam que aproximadamente 76% se identificam como brancas e 88% são heterossexuais. Apesar disso, a Endeavor tem promovido ações para tentar mudar esse cenário e já conseguiu, no ano passado, um aumento de 18% para 27% no número de empresas aceleradas com pelo menos uma mulher fundadora.

“A questão de diversidade não está só relacionada a fazer o certo. Sabemos que as companhias com pelo menos uma mulher em seu time executivo são mais lucrativas. Um ambiente diverso e inclusivo é também mais propenso à inovação”, declara Maria Fernanda. Outro desafio de crescimento, segundo a executiva, é o de conseguir escalar os próprios negócios. O acesso ao capital, por exemplo, tem uma enorme desigualdade. Na locação de capital, startups fundadas exclusivamente por mulheres, apesar de responderem a quase 5% do ecossistema, receberam apenas 0,04% do total de capital de risco investido no país em 2020.

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