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Perfil

Ana Luiza McLaren: novos espaços para potências femininas

Cofundadora e CEO do enjoei conta como aliar autonomia e independência financeira a vendas

Giovana Oréfice
16 de março de 2022 - 10h00

A cofundadora e CEO do enjoei enxerga a internet como um “prato cheio” para o empreendedorismo feminino (Crédito: Germano Lüders)

Aliando autonomia e independência financeira à afinidade com vendas, Ana Luiza McLaren via na publicidade uma aspiração de carreira. Formada em publicidade e propaganda pela ESPM do Rio de Janeiro, ela viu que o comércio eletrônico do exterior, mais desenvolvido, era uma oportunidade de inovação no Brasil. “Eu tinha sempre muito muito certo o que eu queria fazer, aonde eu queria ir, aonde eu queria experimentar”, diz. Após esboços de negócio que giravam em torno da pergunta central de como entregar, pela internet, uma experiência de consumo totalmente diferenciada, a ideia de um blog deu início ao enjoei. A partir do storytelling de cada produto, unindo entretenimento à transação, a plataforma que se comporta como um brechó virtual, da qual Ana Luiza é cofundadora — ao lado de Tiê Lima — e CEO, se consolidou como empresa em 2012, três anos após sua concepção e, desde então, é referência no segmento. 

Ingressando no ramo como uma nativa digital, a CEO enxerga a internet como um “prato cheio” para o empreendedorismo feminino, uma vez que a flexibilidade que o ambiente permite leva muita potência a mulheres. “Esse assunto realmente me emociona. Eu acho que a tecnologia tem muita responsabilidade nesse tipo de transformação na vida das pessoas”, diz.  

Ainda, a executiva ressalta como projetou sua longevidade no mercado de trabalho e estabilidade financeira independente da idade no empreendedorismo e aponta que empreender é pensar a longo prazo. “A força de vontade que você tem que ter para fazer com que um negócio perdure é de outra ordem de grandeza. O que isso significa? Que você não pode se dar ao luxo de estar cansado, por exemplo, porque as demandas são inúmeras, e que isso não muda”, reforça. 

Confira entrevista completa a Women to Watch:

MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 

“Eu pensava: se tudo der errado na minha vida, eu vou vender Contém 1g, eu vou fazer bijuteria, eu vou conseguir ter a minha própria autonomia, que eu já tinha. Então, qual o risco, afinal? Eu olhava para o meu redor nas grandes corporações e pensava que lá não tinham pessoas muito mais velhas. Se pensarmos que a partir de determinada faixa etária, sumimos desse ambiente, eu precisava fazer algo e garantir a minha longevidade e estabilidade financeira. Eu estava me antecipando uma grande parte da minha vida porque a nossa geração tende a viver mais.” 

DO EMPREGO FIXO AO EMPREENDEDORISMO 

“Tudo foi muito natural. No meu caso especificamente, rodamos blog por três anos. É como se tivéssemos testado esse mercado por três anos. Viramos empresa em 2012 e embora fosse muito pequenininho, muito incipiente, o mercado de roupa usada no mundo ainda está se estabelecendo, e estamos fazendo isso no Brasil — que já é uma dificuldade — há dez anos. Agora isso começa a ficar um pouco mais normal, de que as roupas poderiam ser vendidas e não necessariamente apenas doadas. Naquela época, mesmo para aquele pequeno tamanho, a gente sentia que tinha muita atração. Quem usava o enjoei lá em 2012 adorava aquilo. E, fundamentalmente, a gente estava se divertindo muito mais fazendo aquilo do que aquela vida de planejar o ano a ano. No nosso caso, tínhamos na mão um produto e a resposta do público. Pensávamos que era a nossa obrigação trabalhar no que tinha demanda.” 

EXPERIÊNCIA CORPORATIVA 

“Quem trabalha no varejo trabalha com muita atenção ao resultado, com o olho no detalhe, com a qualidade da operação. Somos muito ligados em venda e imagem. […] Acho que quem trabalha no varejo tem bastante noção do todo. Em outras empresas também, tem a maneira como se organizam estruturalmente por dentro. Grandes companhias têm uma governança. Tudo isso é experiência para você e inclusive para o time que você contrata e lidera. A corporação te dá muito muita formação. Até hoje eu aprendo tanto com o enjoei, porque ele hoje já é também uma empresa que também tem essa troca, então é uma piscina de aprendizado.” 

EMPREENDER A LONGO PRAZO 

“Não tem como pensar em um negócio sem esse mindset. Eu acho que a força de vontade que você tem que ter para fazer com que um negócio perdure é de outra ordem de grandeza. O que isso significa? Que você não pode se dar ao luxo de estar cansado, por exemplo, porque as demandas são inúmeras, e isso não muda. Desde quando o negócio é pequeno, é preciso fazer coisas muito diferentes de outros contextos. Vamos supor que você tem um pequeno negócio, uma loja, e ela funciona muito bem, produzindo receita. Eu digo que para empreender não é preciso coisas gigantescas. Certamente, à medida que o negócio avança, fica fácil para a pessoa que estiver tocando aquele negócio. Grandes entendedores têm vontade de expandir. […] Penso que aumentar a complexidade é uma coisa que deixa pessoas que são inquietas por natureza, entretidas.” 

INTERNET E EMPREENDEDORISMO FEMININO 

“É um prato cheio. Você pode ser quem você quiser na internet, pode vender o que você quiser, sem sair de casa — no caso de mulheres com criança em casa, por exemplo. Essa flexibilidade traz para as mulheres muita potência. Quando olhamos para dados de violência doméstica, [o empreendedorismo] está sempre associado à capacidade da mulher de sair dessa condição. Especialmente agora, com o crescimento do TikTok, tem muita gente produzindo conteúdo legal em todas as classes sociais e conseguindo gerar renda. Isso é um máximo, esse assunto realmente me emociona e eu acho que a tecnologia tem muita responsabilidade nesse tipo de transformação na vida das pessoas –não só para as que têm empresas, mas para quem quiser produzir qualquer coisa. A digitalização do mundo faz com que você consiga entregar esse material de forma muito mais simples.”

COMO COMEÇAR? 

“Eu sempre digo que todo mundo tem ideias e muita vontade de fazer. Mas entre ter a ideia e efetivamente fazer, corre um rio absurdo. À medida que vou ficando mais velha, vou entendendo que as pessoas têm medo de se frustrar. Quando você se dispõe a fazer qualquer coisa, você está disposta a errar, e às vezes não está pronta para lidar com o erro. Já existem muitas fragilidades e essa seria mais uma. A minha seria que não é preciso ter uma ideia genial, se você tem muita vontade de fazer alguma coisa, simplesmente faça. Sem medo de dar errado. Faça. E, especialmente, faça na melhor qualidade que você possa fazer. Com a mais alta qualidade de execução, porque no fim das contas — até olhando para o enjoei — estávamos vendendo roupa usada, que é um negócio que já existe há muito tempo.”

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