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Opinião

Eu assino… Diretora de filmes

Ver diferentes rostos, tons de pele e experiências de vida dirigindo ainda não é tão recorrente como deveria ser


23 de março de 2022 - 16h41

(Crédito: Shutterstock)

São Paulo é uma das cidades mais incríveis que conheço. 

Nasci nessa terra e tenho muito amor por tudo o que ela representa. Percorrendo suas ruas e diferentes locais, atravessando a cidade da Vila Gustavo, onde nasci, para Pacaembu e Morumbi, onde estudei, além da Faria Lima, Vila Olímpia, Jardins, Vila Madalena e Vila Leopoldina, bairros onde trabalhei, percebi que nessa cidade eu poderia ser aparentemente tudo, mesmo diante de tantos obstáculos, como ser mulher e negra.  

Mas, eu sou uma pessoa que escolheu ser publicitária, ou melhor, ainda na faculdade preferi ir para a produção de filmes publicitários, pois as agências não pareciam locais onde eu seria feliz. Talvez lá em 1994 eu não tenha sentido as portas abertas para uma pessoa como eu. 

Comecei como estagiária da O2 Filmes, e de lá fui para vários outros espaços do mercado de filmes publicitários. 

Fui buscando um caminho que me levaria à direção de arte de filmes, e nessa trajetória trabalhei com diretores que admiro muito, e com eles também aprendi bastante. Mas, onde estavam as mulheres diretoras? Onde estavam as manas? No cinema, tive a oportunidade incrível de trabalhar com Lina Chamie, e nunca vou me esquecer de como foi demais vê-la em ação. 

Como diretora de arte, cruzei com apenas uma diretora de filme em um set publicitário, local em que amo estar e escolhi para evoluir profissionalmente e desenvolver meu potencial. Porém, é um ambiente tão restrito que não consegui trabalhar com outras diretoras, e em 2012 tomei a decisão, que percebi ser necessária, de ir para a direção dos filmes publicitários, pois as ideias fervilhavam em minha mente, mas não tinha espaço para crescer. Afinal, quem iria me dar a primeira oportunidade de sair da direção de arte e ir para a direção senão eu mesma, por mim mesma? Além disso, eu também não encontrava referências semelhantes a mim. Nenhuma outra mulher preta estava nas grandes produtoras naquele momento, e assim resolvi que eu queria mesmo fazer parte desse grupo seleto de mulheres diretoras de filmes publicitários. 

Eu não entendia porque as mulheres não dirigiam os filmes grandiosos, os quais tive a oportunidade de fazer parte da equipe para marcas como Brahma, Skol, Audi, C&A, Ford, entre tantas outras. Afinal, vivência com bebidas muitas tinham. Muitas também tinham o seu próprio carro e adoravam moda etc…mas os filmes mais incríveis estavam nas mãos dos homens. 

Hoje, quando olho para o mercado, ainda tenho dificuldade de ver mulheres dirigindo os chamados “filmões”. Mesmo a publicidade se abrindo um pouco mais, ainda não vejo a diversidade que desejamos. Ver diferentes rostos, tons de pele e experiências de vida dirigindo ainda não é tão recorrente como deveria ser. No entanto, tenho visto lindos trabalhos que merecem toda atenção do mercado, porque foram dirigidos por elas, por nós, e é revigorante ver cada uma ocupando seu espaço. É um incentivo a quem vem chegando e uma dose de coragem para que outras se sintam fortalecidas e acreditem que ser diretora de filmes é possível, mesmo quando parece que não há lugar para nós.  

O grupo Mulheres do Audiovisual Brasil e o Free The Work têm feito um trabalho muito bacana, tanto aqui no Brasil, como fora. Contudo, isso não quer dizer que nós podemos relaxar. Muito pelo contrário: cada vez mais, precisamos mostrar o quanto somos capazes e podemos realizar os filmes que sonhamos. Porque sim, temos diferentes expertises e talentos, e tudo é uma questão de oportunidades. 

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