Quatro lições da greve dos roteiristas e atores de Hollywood

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Opinião

Quatro lições da greve dos roteiristas e atores de Hollywood

Em camada mais profunda que a discussão salarial, movimento apontava para questionamentos sobre o futuro do trabalho


16 de outubro de 2023 - 6h00

No início da minha carreira, fui repórter de uma editoria chamada Sindical de um extinto jornal popular de São Paulo e meu trabalho era cobrir greves, que àquela altura – meados dos anos 1990 – eram frequentes. Algumas delas entraram para a história, como a greve dos petroleiros de 1995, considerada um marco no movimento sindical brasileiro por representar a maior paralisação na história da categoria, com duração de 32 dias e que teve como consequência desabastecimento em cadeia, especialmente de gás de cozinha, pressionando as negociações.

Além do traquejo em reportagens de rua, essa experiência também me trouxe um enorme aprendizado de vida. O principal deles foi que aprendi, de um lugar privilegiado, a observar grandes negociações e todo o jogo de cena envolvido nelas. Mas, o principal foi perceber, que embora o pleito central sempre seja ligado a questões financeiras, greves são atos políticos por natureza. Quase três décadas depois dessa rica experiência confesso que fiquei bastante interessada em acompanhar os desdobramentos da greve dos roteiristas e atores de Hollywood, que terminou no final de setembro com duração de 148 dias.

Por todos os simbolismos que essa paralisação representa, é importante pontuar suas principais lições, já que uma boa parte da indústria do entretenimento teve (ou ainda tem) seu modelo de negócio baseado na indústria publicitária:

1. Roteiristas de 2023 e mineiros de 1980: dois lados da mesma moeda

Margareth Thatcher entrou para a história por ter sido a primeira-ministra mulher do Reino Unido e ter conduzido a economia do país com mãos de ferro. O episódio mais exemplar dessa trajetória foi a forma como lidou com a greve dos mineiros, de 16 meses, ocorrida entre os anos de 1984 e 1985, e que terminou em nada. Esmagados pela falta de salários e com suas economias esgotadas, os mineiros voltaram ao trabalho desmoralizados. Além de não terem qualquer ganho significativo, ainda aceleraram o processo de migração da produção de minério do Reino Unido para países com minas mais eficientes.

Embora o sindicato dos roteiristas, o Writers Guild of America (WGA), tenha divulgado que saiu vitorioso do acordo com os estúdios, os 5% de aumento salarial que colocou fim à greve ficou abaixo da inflação real de 8% anual. “A matemática já feia fica horrível quando se levam em conta os cinco meses em que os redatores, em função da greve, registraram redução de 100% no salário. Para que um contrato sindical de três anos compense essas perdas, você precisaria aumentar o salário do redator em 14%. Isso se soma às perdas inflacionárias. Portanto, o aumento mínimo que os escritores precisam para não perder

poder de compra é de 24%”, analisa Scott Galloway, o famoso professor de marketing da Universidade de Nova York no seu podcast Pivot.

2. Novas formas de trabalho, velhos dilemas

Da mesma maneira que os mineiros ingleses subestimaram a força do processo de globalização da produção e imaginavam que seu poder de barganha fosse muito maior do que era na realidade, os atores e roteiristas talvez possam ter incorrido neste mesmo erro histórico ao avaliar o potencial da inteligência artificial generativa. É crescente o desejo dos grandes grupos de mídia em adotar IA para cortar custos. Não é segredo também que se deve intensificar o processo de precarização da mão-de-obra, em que os profissionais passam a receber por obra, encerrando seus vínculos com as empresas.

Os salários estavam no centro da pauta das reivindicações, mas o ponto principal era uma discussão mais ampla sobre o futuro do trabalho. O resultado da paralisação de roteiristas e atores apontou o destino do processo de uberização da força de trabalho e os limites para a substituição de humanos por máquinas em diversas tarefas na indústria criativa. Por sua visibilidade, Hollywood tem ainda boas chances de pautar o debate em outras indústrias e definir caminhos para lidar com a precarização das relações de trabalho e implementação das IAs.

3. O efeito Netflix

O que os sindicatos tentaram com a greve foi pressionar grupos de mídia, e principalmente as plataformas de streaming, a voltarem a remunerar os trabalhadores seguindo o mesmo modelo do passado, quando a TV e o cinema eram dominantes. O problema, como alguns analistas apontam, é que a conta não fecha. O streaming destruiu o modelo de negócio antigo, mas não trouxe um novo modelo sustentável para a indústria.

“É fácil imaginar a ‘ilusão do streaming’ e os investimentos faraônicos como um erro dos chefões dos conglomerados de mídia. Porém, um considerável número de atores e roteiristas que entraram em greve abraçou animadamente o streaming como uma oportunidade de realizar trabalhos mais autorais que não cabiam na TV ou no cinema”, escreveu o analista da Business Insider, Reed Alexander.

A Netflix dá lucro e tudo indica que será a grande beneficiada pela greve. Ela tem mais produções internacionais e depende menos de Hollywood e da mídia tradicional, diferentemente de concorrentes como Disney, Warner e Paramount. Inclusive, a Netflix espera economizar US$ 1,5 bilhão neste ano em função da greve. Os grandes grupos de mídia estão em crise justamente por copiar a Netflix.

4. IA no centro, na frente e atrás

Durante a greve dos roteiristas e atores de Hollywood, o site The Intercept revelou que a Netflix anunciou uma vaga para gerente de produto de “machine learning” com salário entre US$ 300.000 e US$ 900.000 (algo entre R$ 1,5 milhão e R$ 4,5 milhões) por ano. De

acordo com o sindicato dos atores, o Screen Actors Guild (Sag-Aftra), 87% dos atores do sindicato ganham menos de US$ 26.000 (R$ 132 mil) por ano.

“Resolver o problema significa primeiro identificá-lo. O adversário não é um executivo de Hollywood com um suéter de cashmere; é um garoto de 17 anos em um porão navegando no TikTok. A ascensão das mídias sociais está diretamente correlacionada ao declínio da mídia tradicional. O TikTok agora comanda 95 minutos de atenção do usuário por dia, o equivalente a quatro episódios e meio de The Office. Os dólares publicitários que Hannah Montana costumava gerar não foram roubados por Bob Iger (presidente da Disney), mas pelo Vale do Silício e Pequim. Quando questionados se preferem o TikTok em vez de todas as mídias de streaming, dois terços das pessoas com menos de 25 anos escolhem o TikTok”, alfineta Galloway.

Também não é coincidência que o ano da greve dos roteiristas seja também o ano da IA. A IA foi uma questão central na disputa. Os escritores temem que isso possa substituí-los e exigiram que os estúdios não usassem IA – o que os estúdios recusaram. Em vez disso, eles se encontraram no meio do caminho: os estúdios podem usar IA, mas os escritores originais devem receber crédito e compensação.

Galloway vai mais longe e sugere que diante do caráter implacável do IA, para obter um aumento na remuneração que seja legitimamente “excepcional”, os escritores e os estúdios/executivos/atores/editores/redes deveriam se unir. “Eles deveriam formar um consórcio, entrar com ações exigindo que as Big Techs e empresas como Open IA (desenvolvedora do ChatGPT) respeitem e licenciem suas propriedades intelectuais, e assim comecem a valorizar seu trabalho. E eles deveriam fazer isso o mais rapidamente possível.”

Seja como for, estamos diante de um daqueles momentos históricos que serão para sempre lembrados como um ponto de virada. Seus impactos ainda serão sentidos e ditarão os próximos passos de diversas indústrias que têm na fusão da criatividade com a tecnologia sua fortaleza – ou será vulnerabilidade?

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