Humanos precisam continuar conversando com humanos
Entre algoritmos, chatbots e inovação, surge um tema central: o enfraquecimento das relações humanas
A frase do título é de Jon Levy, pesquisador comportamental que participou do painel “The New Cool: Choosing Moderation in a World of Excess”. Depois de três dias intensos em Austin, passando por diferentes trilhas do SXSW, um tema apareceu de forma consistente em diversos painéis: a fragilidade crescente das conexões humanas em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos e inteligência artificial. O tema não é novidade. Já tinha lido sobre em alguns resumos sobre o SXSW no ano passado. Mas, sendo meu primeiro ano, vivenciar presencialmente as discussões, ver o mesmo ponto surgir em painéis tão diferentes, trouxe mais insights e urgência. Gera um certo pessimismo e ansiedade pensar no impacto possível, mas como uma entusiasta da tecnologia, não deixo de pensar que pode existir um caminho mais otimista para esse novo contexto, ainda mais vivenciando um festival repleto de conexões humanas.
A discussão apareceu já no primeiro painel que assisti, em “Who Owns the Truth?”, sessão com Imran Ahmed, fundador do Center for Countering Digital Hate. O ponto central da conversa é que plataformas digitais não apenas distribuem informação — elas têm o poder de direcionar e moldar opiniões, muitas vezes reforçando discursos polarizados em busca de maior engajamento.
Segundo Ahmed, os algoritmos tendem a privilegiar conteúdos negativos ou extremos, que geram mais reação emocional e, consequentemente, mais tempo de permanência nas plataformas. O efeito colateral vai além da redução de capacidade crítica e qualidade do debate público: também afeta a forma como nos relacionamos. O próprio Ahmed comentou que, ao lidar diariamente com esse tipo de conteúdo, percebeu que se tornou mais retraído nas interações sociais.
Sob uma ótica distinta, a necessidade de pertencimento e reconhecimento apareceu na palestra de Jennifer B. Wallace, autora e fundadora do The Mattering Institute. Em sua sessão, ela reforçou a ideia de que sentir que importamos para alguém — que somos vistos e valorizados — é um elemento central para o bem-estar humano.
Esse tema se conecta a um alerta recente do U.S. Surgeon General, que classificou a solidão e o isolamento social como um problema relevante de saúde pública nos Estados Unidos. Pesquisas do Survey Center on American Life, também citado por Jon Levy, indicam que o número de americanos que dizem não ter amigos próximos aumentou significativamente nas últimas décadas.
Foi justamente nesse contexto que outro painel trouxe um conceito que começa a ganhar espaço nas discussões sobre bem-estar: social health.
Na sessão “The Third Wave of Health: Social Health”, a pesquisadora Kasey Killiam argumentou que estamos entrando em uma nova fase da agenda de saúde. Durante muito tempo o debate se concentrou na saúde física. Depois veio o foco em saúde mental. Agora surge um terceiro pilar: a saúde social.
A premissa é simples, mas poderosa. A qualidade das nossas relações – amizades, comunidade, senso de pertencimento – tem impacto direto em felicidade, saúde e longevidade. O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que tecnologias ampliam nossa conectividade digital, indicadores de isolamento social continuam crescendo.
Talvez o exemplo mais simbólico dessa tensão tenha surgido na conversa “Love, Loneliness and AI”, conduzida pela psicoterapeuta Esther Perel com o diretor Spike Jonze, conhecido pelo filme Her.
A discussão partiu de um fenômeno cada vez mais presente: pessoas recorrendo a chatbots de inteligência artificial como companhia emocional. E, em alguns casos, até como parceiros românticos.
A provocação feita na sessão é interessante. A IA oferece exatamente aquilo que relações humanas muitas vezes não garantem: disponibilidade constante, escuta sem julgamento, validação das emoções e reforço da perspectiva do usuário. Nos sentimos validados, mattering, mas perdemos a chance de sermos desafiados. Sem discordância, sem atrito e sem pontos de vista divergentes, essas interações podem criar um ambiente confortável — porém intelectualmente empobrecido — em que nossa própria visão de mundo se torna a única referência.
Saio desses primeiros dias do SXSW com a sensação de que estamos entrando em uma fase em que a capacidade de se relacionar pode se tornar uma habilidade que precisaremos cultivar de forma consciente, ponto defendido por Kasey: assim como cuidamos da saúde física ou mental, talvez seja preciso cuidar também da nossa saúde social: cultivar amizades, debater ideias diferentes, conviver com discordâncias e preservar espaços de encontro real.
Para quem trabalha com marketing, é imperativo. Durante anos, a tecnologia prometeu eficiência, personalização e escala. Mas em um cenário em que algoritmos disputam atenção e chatbots disputam até companhia emocional, talvez o verdadeiro diferencial das marcas esteja na capacidade de criar experiências e narrativas que aproximem pessoas. No fim do dia, conexões humanas continuam sendo o que alimenta repertório, troca e criatividade – elementos que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente. Estar presente, trocando com pares da indústria, conhecendo gente nova, vivenciando o evento, certamente me trouxe novas perspectivas que nenhum resumo gerado por AI poderia propiciar.