As narrativas queer de Gautier Lee para o audiovisual 

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Inspiração

As narrativas queer de Gautier Lee para o audiovisual 

A diretora e roteirista não-binária já ganhou diversos prêmios por projetos autorais e ainda se destaca no cenário do streaming 


31 de janeiro de 2024 - 14h19

Gautier Lee é diretora, roteirista, escritora e uma das fundadoras do Macumba Lab, coletivo de profissionais do audiovisual negro no Rio Grande do Sul (Crédito: Rafael Bede)

Da adolescente que cresceu vendo filmes blockbusters como as sagas “Crepúsculo”, “Jogos Vorazes” e “Harry Potter”, nasceu a diretora e roteirista Gautier Lee. Mas foi num curso preparatório para atores que ela descobriu sua paixão por gravar e editar filmes, que posteriormente a levou a cursar cinema na PUC do Rio Grande do Sul por meio do Prouni. Hoje, seu currículo leva projetos de diferentes serviços de streaming, sendo um deles a série teen “De Volta aos 15”, protagonizada por Maisa Silva e Camila Queiroz.  

Gautier também tem um carinho especial pelos seus projetos autorais, como o curta “Desvirtude”, que logo em sua estreia, no Festival de Cinema de Gramado, levou vários prêmios, e conta com o roteiro e direção dela. Sua experiência como pessoa não-binária é fonte de inspiração e motivação para outras obras, como seu primeiro longa-metragem, “Pajubá”, e seu primeiro livro, “Diário de Uma Despeitada: A Anatomia de Uma Pessoa Queer Negra”. 

Nesta entrevista, a diretora, roteirista e escritora, que também é uma das fundadoras do Macumba Lab, coletivo de profissionais do audiovisual negro no Rio Grande do Sul, fala sobre sua trajetória profissional, com destaque para sua experiência no set e na sala de roteiristas da série “De Volta Aos 15”. Além disso, ela também comenta sobre o seu primeiro longa, sua veia literária e os desafios que a indústria audiovisual ainda enfrenta na questão da diversidade. 

Pode fazer um breve resumo da sua carreira?

Durante a faculdade, fiz explorações artísticas ao dirigir um curta divertido sobre videogame e, posteriormente, escrever com um amigo outro curta de terror para meu TCC. Esse projeto, mesmo fora do meu gênero usual, foi selecionado para o Festival de Gramado, em Portugal e Salvador. Após a graduação, realizei meu primeiro curta autoral, o “Desvirtude”, com recursos limitados, fortalecendo minha crença no poder da colaboração. 

O sucesso do “Desvirtude” em festivais, incluindo prêmios de melhor montagem, atriz, direção e filme, abriu portas para outras oportunidades, como a participação no “Diversity in Cannes”, iniciativa voltada para diversidade e inclusão em Cannes. Paralelamente, atuo como roteirista em projetos de streaming, colaborando com plataformas como Amazon, Netflix, Globoplay e Comedy Central. Esses trabalhos não apenas contribuem para minha carreira, mas também refletem minha sorte em participar de produções que genuinamente aprecio, indo além do aspecto financeiro. 

Fale um pouco sobre seu primeiro longa, “Pajubá”. Como ele surgiu e como foi o processo de produção do filme? 

O “Pajubá” surgiu da mente brilhante de Hela Santana, que queria criar um filme sobre a vivência trans. Quando ela me mandou o primeiro tratamento, fiquei maravilhada e disse que queria dirigi-lo. Passamos 2021 em busca de financiamento, mas só em 2022, graças a um edital de produção audiovisual no Rio Grande do Sul, fomos contemplados. 

Começamos efetivamente em janeiro de 2023. Nos seis meses iniciais, focamos no desenvolvimento do roteiro, que, por ser um documentário com elementos ficcionais e de performance, demandava um cuidado especial. Com o suporte necessário, iniciamos a pré-produção com o objetivo de ter uma equipe majoritariamente composta por pessoas trans. 

Durante a produção, nossa claquete foi preenchida pelos nomes de todos os envolvidos, destacando a diversidade e representatividade na equipe. Gravamos em quatro cidades diferentes, entrevistando mais de 25 pessoas notáveis, como Keila Simpson, Erika Hilton, Neon Cunha, Caê Vasconcelos e Dayo Nascimento, abrangendo diversas áreas, desde política até gastronomia e arte drag. 

O processo foi intenso e enriquecedor, culminando nas filmagens concluídas no ano passado. Agora, estamos imersos na fase de pós-produção, enfrentando o desafio de transformar mais de 12 horas de material em uma narrativa coesa de uma hora e meia. Estamos neste momento crucial de moldar o filme e definir a direção final. 

Você também foi roteirista da série “De Volta aos 15”, da Netflix, que inclusive tem uma personagem trans. Como é participar de uma série para o público jovem que aborda a temática? 

Eu sou uma grande fã do “De Volta aos 15”. Desde os dias na sala de roteiro, que eram repletos de piadas e ideias sobre reviravoltas, casais e músicas. Foi um processo muito divertido. Além disso, tive a oportunidade de ser diretora assistente na segunda temporada, acompanhando o set de três episódios.  

Desde o início, sabíamos que não queríamos que a trajetória da Camila fosse centrada apenas em sofrer transfobia durante toda a temporada. Optamos por uma abordagem oposta, explorando sua jornada antes e depois da transição. 

Enfrentamos questões complexas, especialmente no que diz respeito à trama romântica da Camila com o personagem do Pedro Ottoni, o Léo. Queríamos dar um rumo respeitoso a esse relacionamento, considerando o conflito de identidade entre o Léo, que é gay, e a Camila, uma garota. Eles ficaram juntos em um momento em que nenhum dos dois estava ciente dessas identidades. Decidimos, de maneira lógica, que eles eram um casal incompatível, mas que poderiam se tornar melhores amigos. 

Além disso, queríamos explorar as nuances do entendimento de gênero para uma adolescente. Embora eu tenha contribuído como pessoa trans na sala, foi verdadeiramente um processo colaborativo, no qual todos os roteiristas tiveram participação ativa na construção da história que chegou às telinhas. 

Você também já recebeu diversos reconhecimentos, como o prêmio Cabíria de roteiro com foco em mulheres e diversidade. Na sua visão, como você conseguiu se destacar no mercado do audiovisual? 

Sempre penso: como cheguei aqui? Quando digo “aqui”, me refiro a um lugar que considero confortável financeiramente, profissionalmente e psicologicamente. Chegar a esse lugar confortável foi uma jornada de não desistência. Desistir nunca foi uma opção para mim.  

Após a faculdade, passei um ano dando aulas de inglês para crianças. Chegou um momento em que me ofereceram uma vaga em uma campanha política como assistente de edição. Teria que abandonar meu emprego como professora, mas, ao fazer as contas, percebi que o salário de educadora em seis meses era inferior ao que ganharia em dois meses na campanha. Então, tomei a decisão de arriscar. Me demiti do trabalho CLT e fui para a campanha. Depois disso, não apareceram mais oportunidades, e passei todo o ano de 2019 desempregada, com alguns freelas pequenos. 

Ficar desempregada por um ano afetou muito minha saúde mental, mas tive um apoio incrível da minha namorada e da minha rede de suporte. Em 2020, houve uma virada de chave na minha carreira quando ganhei o Cabiria, um prêmio voltado para mulheres com roteiros sobre protagonistas femininas. Na época, eu me identificava como mulher, então me inscrevi e ganhei.  

Essa validação externa abriu portas, e, no início de 2020, fui chamada para minha primeira sala de roteiro. A partir daí, as oportunidades foram se multiplicando positivamente, uma chamando a outra. Então, se eu tivesse desistido do audiovisual em 2019, teria perdido tudo isso. Sei que nem todos têm uma rede de suporte como a minha. Mas acredito que, ao superar esses desafios, nos tornamos mais resilientes e fortes para conquistar nossos objetivos. 

Como você avalia a diversidade no setor do audiovisual brasileiro, tanto na frente quanto atrás das câmeras? Quais barreiras ainda precisam ser superadas para que ele seja mais inclusivo? 

Um dos principais desafios é melhorar nossa política de cotas em editais públicos. Tivemos um exemplo no edital Ruth de Souza, que é voltado para mulheres. Eu, como pessoa não-binária, e os homens trans também ficam excluídos. Precisamos debater de maneira mais profunda e justa essas questões, não apenas em torno desse edital, mas de vários outros. No meu caso, o filme “Pajubá” só foi possível com o apoio de um edital público. Se não fosse por isso, não teríamos recursos para realizar o projeto. 

Essas discussões são complexas, mas precisam acontecer para avançarmos. É injusto que, em um edital voltado para mulheres, uma mulher branca de classe média seja contemplada em vez de um homem trans negro. Isso não faz sentido e vai contra a ideia de equidade. Além disso, o mercado de produções maiores parece estar mais preocupado em incluir pessoas negras, não brancas e não cis, mas ainda há dúvidas sobre a sinceridade desse interesse. Muitas vezes, parece ser mais uma estratégia de marketing do que uma mudança real. Eu fico ali, duvidando se esse interesse é genuíno ou apenas uma maneira de evitar críticas, mas acho importante confrontar essas questões para que haja uma mudança real e genuína na indústria audiovisual. 

Quais são seus planos para o futuro? 

Tenho vários planos para este ano. Em algum momento, será lançada a terceira temporada de “De Volta aos 15”. Estou bastante ansiosa para que as pessoas possam assisti-la. Este ano, no set, foi uma experiência incrível, muito divertida e fofa. Além disso, estou terminando a escrita do meu segundo livro e me preparando para começar o terceiro.  

Também estou trabalhando em um projeto para a Amazon, do qual ainda não posso revelar detalhes, mas acredito que chegará às telinhas no próximo ano. Por fim, estou torcendo para ser contemplada em outro edital e lançar meu segundo longa-metragem, que desta vez é uma obra de ficção com roteiro, direção e produção executiva de minha autoria. Trata-se de um filme infanto-juvenil natalino, que possivelmente será lançado no próximo ano. 

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