Beta Boechat: as pazes do ativismo com o mundo corporativo

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Beta Boechat: as pazes do ativismo com o mundo corporativo

Após 15 anos no mercado de marketing e influência, a fundadora do Movimento Corpo Livre chegou a conclusões importantes sobre a diversidade na indústria da comunicação


19 de junho de 2024 - 18h38

Beta Boechat é fundadora do Movimento Corpo Livre e parte do Conselho Jovem do Pacto Global da ONU (Crédito: Arthur Nobre)

Beta Boechat, a publicitária e ativista que fundou o Movimento Corpo Livre, nunca imaginou que sua vida tomaria um rumo tão transformador. Desde a infância no subúrbio do Rio de Janeiro, ela lembra que sempre se sentiu diferente, como se fosse uma “alienígena” entre as outras crianças. Esse sentimento de estranheza a acompanhou por muitos anos, até encontrar seu caminho de defesa do ativismo corporal e da diversidade no mundo do marketing e da influência e, agora, no universo corporativo.

Sempre fui uma criança gorda. Acho que isso pode ter contribuído para que eu me sentisse estranha, além da questão de gênero. Brinco que a Beta já existia em algum momento ali e, para me proteger, teve que fazer uma viagem e deixar outra pessoa no lugar quando descobriu que eu não podia ser quem era.” 

Depois de anos de desafios e alguns processos de transição, ela hoje é um dos nomes mais fortes de conteúdo sobre corpo, gênero e diversidade no Brasil, além de atuar como consultora de diversidade e inclusão para grandes marcas, entre elas Unilever, Pepsico, Mercado Livre, Meta, Itaú e Nestlé, e para eventos de criadores de conteúdo como Farofa da Gkay e Gabi Weekend. Beta é, também, parte do Conselho Jovem do Pacto Global da ONU. 

Coragem para mudar

Na infância, Beta era uma criança artística e extrovertida. “Juntava todo o pessoal do meu condomínio para ver peças de teatro e apresentações que eu fazia. Não tinha vergonha de nada naquela época”, relembra. No entanto, com o tempo, essa criatividade e desinibição deram lugar a uma vergonha profunda.  

Ao entrar na adolescência, começou a construir uma imagem bastante masculina como uma ferramenta de defesa. “Criei esse personagem perto dos 17, 18 anos, com uma barba grande, porque pensei que, se eu continuasse sendo aquela pessoa, talvez eu não sobrevivesse.” 

Mas foi depois de uma depressão profunda que Beta criou coragem para se expor na internet e passar pela transição de gênero aos 30 anos. Para ela, o ato corajoso aconteceu, mais uma vez, por sobrevivência. “Sempre fui muito medrosa, mas quando tomava consciência de algum processo dentro de mim, ele andava sozinho. Foi muito doloroso, mas, ao mesmo tempo, é como se não tivesse outra opção, pois chegou num nível em que não conseguia lidar internamente com aquilo e precisava se tonar realidade. Acho que a coragem veio do desespero.” 

Publicidade, influência e propósito 

A carreira de Beta na publicidade começou cedo, depois de se formar na PUC-Rio. Ela trabalhou em agências, mas sua paixão sempre foi pela criação de conteúdo. Tinha um blog de cultura pop, mas, mesmo tentando iniciar um canal no YouTube diversas vezes, a dificuldade com a autoimagem a fazia desistir rapidamente. “Eu publicava um vídeo e tirava do ar. Não conseguia manter aquilo por muito tempo.” 

Em 2016, ela enfrentou um período de depressão. A rejeição que sentia por si mesma atingiu um ponto crítico, levando-a a buscar ajuda e iniciar sua jornada de autoconhecimento. Foi nesse momento que começou a criar conteúdo na internet como um grito de desespero, na esperança de encontrar outras pessoas que passavam pelo mesmo. “Eu não conseguia me olhar no espelho. Achava que tinha vindo com uma parte quebrada.” 

Sua trajetória na internet a levou ao movimento “body positive”, que já existia fora do país e mais tarde, no Brasil, se materializaria com o Movimento Corpo Livre, fundado por ela, Caio Cal e Alexandra Gurgel, amigos e parceiros no ativismo. O projeto, que começou como um perfil no Instagram, evoluiu para a criação de uma plataforma de conteúdo voltada para a aceitação corporal e a diversidade.  

“Queríamos mostrar para as pessoas que é possível viver e ser feliz da maneira como você é, sem culpa. A ideia era passar que nunca devemos emagrecer, engordar, fazer um procedimento ou outra coisa por pressão.” 

O trio de fundadores se tornou inseparável. Beta, aliás, começou a namorar Caio em 2017 e conheceu Alexandra logo depois, no mesmo mês. “Tudo isso ajudou a desenvolver minha autoestima, buscando pares e pessoas parecidas comigo. Logo depois, nos mudamos para São Paulo e moramos juntos.”  

O movimento logo cresceu e passou a oferecer consultoria para empresas sobre diversidade, equidade e inclusão. “Depois que Alessandra falou no programa Fantástico sobre o corpo livre, tivemos um boom na página e entendemos que precisávamos ir para outros lugares. Hoje o Movimento Corpo Livre é uma empresa que ajuda a sociedade a ganhar a linguagem da diversidade”, explica Beta. A iniciativa colaborou com grandes marcas como Puma, Adidas e até mesmo com produções de TV, como novelas da Globo e produções da Max. 

Diversidade nas empresas

Depois de 15 anos de trajetória, Beta entende que o Movimento Corpo Livre pode ser um grande aliado do mercado da comunicação e do universo corporativo. “Por muito tempo, o ativismo foi visto como algo separado da indústria, ou mesmo contra ela. É óbvio que teremos conflitos no meio dessa história, mas sempre vou pelo caminho de que podemos transformar as coisas agora.” 

Conflitos, aliás, são a base da mudança em que acredita. Ela costuma falar dentro e fora das empresas sobre a importância de aceitá-los nas companhias para promover a diversidade. “Os líderes têm muito medo de trazer diversidade para as equipes, porque isso aumenta o conflito. Mas o conflito faz parte da criação”, destaca. Beta entende que trazer diferentes perspectivas para dentro das empresas é fundamental para o progresso. 

Beta Boechat: “Por muito tempo, o ativismo foi visto como algo separado da indústria, ou mesmo contra ela” (Crédito: Arthur Nobre)

Para ela, o Movimento Corpo Livre contribui ao mostrar para as empresas que a diversidade é um diferencial competitivo, e que uma soft skill de liderança crucial hoje é lidar com conflitos e fazer com que deles nasçam projetos mais legais. “Existe o que é perfeito e utópico e o que é possível de ser negociado dentro da estrutura que temos agora. Comemoro as pequenas vitórias.” 

Mudanças culturais

De projeto em projeto, Beta se orgulha de ter contribuído para mudanças culturais relevantes no Brasil. “Há 10 anos não falávamos sobre corpo livre, mas estávamos lá no primeiro dia em que a Globo usou a palavra ‘gordofobia’. Hoje é um termo que muita gente conhece, concordando ou não, porque o assunto chegou na mesa. Nossos projetos são sobre fazer essas mudanças de um jeito transformador, mesmo que sutil.” 

Ao contrário de algumas pessoas do mercado, Beta acredita que não há como retroceder em diversidade e inclusão. “Quanto mais ficamos conscientes de um assunto, mais percebemos os problemas dele. Há poucos anos, podíamos ser racistas, gordofóbicos, transfóbicos e LGBTfóbicos abertamente na televisão. Hoje não tem mais como. É óbvio que vamos andar para frente e para trás em pequenas coisas o tempo inteiro, é um movimento sempre cíclico. Mas não podemos olhar esse progresso assim.” 

No entanto, a fundadora do Movimento Corpo Livre acredita que ainda há muito medo, por parte das empresas, de um posicionamento ser capaz de manchar a imagem delas. “Mas elas ganham muito mais quando têm coragem de levantar uma bandeira, porque isso as torna mais autênticas para as pessoas que concordam com aquilo. Há companhias que não têm medo de se posicionar, e isso faz com que tenham carinho, admiração e uma conexão de brand lover com elas muito mais fortes do quem não gosta, porque quem não gosta já não ia gostar.” 

Identidade, gênero e futuro 

Desde os 30 anos, Beta tem passado por um processo profundo de autoconhecimento e transição de gênero. Inicialmente, ela se identificou como pessoa não binária, mas hoje se vê como uma mulher trans. O motivo da mudança, segundo ela, é que inicialmente não se encaixava no grupo das mulheres ou dos homens, mas agora entende que o significado de “mulheridade” é muito maior do que o grupo feminino que conhecia até então. 

“A não binariedade é uma negociação com uma visão de gênero que hoje existe, porque entendemos que há os gêneros masculino e feminino, embora não saibamos exatamente o que seja isso. Achamos que é algo natural, mas ao mesmo tempo sabemos muito bem que aprendemos a ser homem e a ser mulher. Performamos gênero o tempo inteiro“, comenta. No fim das contas, para ela, o mais importante é que as pessoas se sintam confortáveis com quem são, e possam mudar de identidade se assim desejarem. 

“Não quero dar soluções para a vida das pessoas. Não tenho solução para a minha, imagina para as delas?”, diz Beta (Crédito: Arthur Nobre)

“Sou muito contra a ideia da autodescoberta, pois sinto que não há algo a ser descoberto dentro de nós, mas sempre algo a ser construído. Se estou falando de gênero como construção o tempo inteiro, como vou dizer que existe uma verdade escondida dentro de mim que um dia irei descobrir? Pode ser que quando eu tiver 60 anos tenha uma percepção completamente diferente de mim e está tudo bem.”

Enquanto termina seu livro sobre a coragem de ser quem se é, ainda sem nome definido, Beta continua a batalhar por um mundo mais inclusivo e diverso, usando sua própria experiência como exemplo. “A coragem de ser você é a coragem de não ter medo de bancar quem você é de verdade.” 

E, embora inspire muitas pessoas na internet e na indústria, Beta segue em frente com a certeza de que não deseja ser uma guru ou coach de diversidade e identidade de gênero. “Quero passar a mensagem de que não teremos uma vida perfeita, passaremos por dificuldades, talvez percamos muitas coisas bancando quem somos, mas talvez isso seja mais legal a longo prazo do que continuar vivendo uma vida de mentira. Mas não quero dar soluções para a vida das pessoas. Não tenho solução para a minha, imagina para as delas?” 

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