O entretenimento ativista de Estela Renner

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O entretenimento ativista de Estela Renner

Co-fundadora da Maria Farinha Filmes, a diretora e roteirista tem uma visão inovadora sobre o impacto das produções audiovisuais


21 de fevereiro de 2024 - 14h58

Estela Renner é diretora, roteirista e co-fundadora da Maria Farinha Filmes (Crédito: Divulgação)

O ativismo sempre esteve presente na vida de Estela Renner, desde a infância, quando participou do movimento Bandeirante, até a vida adulta, quando se tornou roteirista, diretora e produtora de filmes com cunho social. Dessa vontade de mudar o mundo, nasceu a Maria Farinha Filmes, produtora audiovisual da qual é co-fundadora. Em seu portfólio estão filmes como “Criança: Alma do Negócio”, “O Começo da Vida”, “Muito Além do Peso” e a série televisiva “Aruanas”.  

Estela é uma grande defensora do bem-estar infantil e do meio ambiente. Por meio de seus filmes e séries, conseguiu alavancar grandes debates acerca de temas como obesidade infantil, o impacto negativo da publicidade para crianças e a importância da primeira infância. Nesta entrevista, você conhecerá um pouco mais sobre a roteirista e diretora e o processo de criação dos seus projetos. 

Como você resumiria sua trajetória profissional? 

Em 2008, juntamente com Ana Lúcia Vilela e Marcos Nisti, co-fundei a Maria Farinha Filmes, produtora da qual ainda faço parte, ao lado das sócias Mariana Oliva e Luana Lobo, que se juntaram mais tarde. A missão com o negócio é abordar temas urgentes por meio de filmes, contribuindo para um mundo mais igualitário, justo e sustentável, tanto social quanto ambientalmente. 

A Maria Farinha Filmes é uma empresa B, certificada pelo sistema B Corp há uma década, sendo pioneira na América Latina no setor audiovisual. Sentimos orgulho por estar nesse lugar e sermos signatários de compromissos junto à ONU, como o movimento Raça é Prioridade. Comprometemo-nos a ter 30% de liderança composta por pessoas negras em nossa produtora até 2030, e estamos próximos de alcançar essa meta. 

Você trabalhou em muitos projetos focados na infância. Como você começou a se interessar pelo tema e por que ele se tornou tão importante na sua carreira? 

Sempre fui uma ativista de coração. Durante 13 anos, participei do movimento Bandeirante, semelhante ao escotismo, focado na convivência com a natureza e no trabalho social. Depois, durante meu mestrado, comecei a produzir curta-metragens com teor ativista, abordando questões como desigualdade social e racismo. 

Sempre tive afinidade com crianças, sendo monitora em acampamentos e como mãe de três filhos. Meu primeiro filme, “Criança: Alma do Negócio”, em parceria com o Instituto Alana, abordou o impacto negativo da publicidade direcionada às crianças. 

Já meu segundo filme, “Muito Além do Peso”, concentrou-se na epidemia crescente de obesidade infantil no Brasil, buscando alertar sobre os graves problemas de saúde associados a esse cenário. Cada obra que produzimos se torna uma ferramenta de advocacy, gerando repercussões significativas. 

Minha paixão por crianças e meu compromisso com o bem-estar infantil continuam a guiar meu trabalho. Enfrentamos muitos desafios, mas acredito que, como sociedade, devemos priorizar o bem-estar das crianças sobre o lucro, promovendo experiências significativas e alimentação saudável. 

Quais são os desafios de fazer um filme retratando a infância com essa veia ativista? 

Quando abordo um novo projeto, a chave para mim é compreender qual produto a sociedade precisa naquele momento específico, a fim de se tornar uma ferramenta eficaz de transformação. É crucial evitar criar algo muito adiantado para o seu tempo, que não ressoe com a sociedade, ou algo que já tenha sido abordado de maneira brilhante por outra produtora. 

Minha abordagem inicial envolve muita pesquisa, buscando o que não está sendo dito ou está sendo comunicado de maneira ineficiente. Por exemplo, ao abordar a obesidade infantil, notamos que já havia programas de televisão tratando do assunto, mas a confusão nos rótulos e a propaganda geravam muita desinformação. 

Para tornar as informações mais compreensíveis, decidimos criar copos de vidro semelhantes às latas de refrigerante, preenchidos com a quantidade de açúcar presente nos produtos. Essa abordagem visual e tangível permitia que as pessoas compreendessem melhor a quantidade real de açúcar contida nos produtos, subvertendo a confiança cega nos rótulos.  

Um dos desafios enfrentados foi a observação de que as empresas e o marketing muitas vezes exploram os limites da lei. Assim, defendemos a necessidade de melhorar essas leis para proteger o bem-estar das crianças. Um exemplo positivo foi o impacto de “Muito Além do Peso”, que influenciou empresas como Coca-Cola, Ambev e Pepsi a removerem bebidas açucaradas de todas as escolas particulares do Brasil. Esse movimento foi uma resposta às preocupações levantadas pelo documentário, demonstrando nossa capacidade de catalisar mudanças significativas. Essas ações não são meras especulações, mas depoimentos diretos dessas empresas. 

Você escreveu e dirigiu o documentário “O Começo da Vida”. Como surgiu esse projeto e sobre o que ele retrata? 

“O Começo da Vida” surgiu por meio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, uma instituição reconhecida por seu trabalho na promoção da primeira infância. A pesquisa extensiva e anos de estudo conduzidos por especialistas revelaram que os primeiros anos de vida são cruciais no desenvolvimento da fundação da pessoa e, consequentemente, do adulto que essa criança se tornará. 

O filme destaca a importância de proporcionar um ambiente saudável, estimulante, amoroso e seguro durante esses anos críticos. Foi desafiador traduzir o conhecimento acadêmico, muitas vezes expresso em termos técnicos, para algo compreensível e identificável para os pais. O filme visa mostrar os elementos fundamentais desse ambiente, incluindo a relação com os pais, avós, cuidadores, brincadeiras, natureza, palavras, histórias e música. 

A série se expandiu, incluindo seis episódios e explorando outras dimensões do desenvolvimento infantil, como a interação com a natureza. “O Começo da Vida Lá Fora” foi uma continuação lançada internacionalmente pela Unicef e Netflix, tornando-se uma referência no tema.  

Como foi para você dirigir “Aruanas”? O que destacaria dessa produção? 

Eu sou a criadora de “Aruanas” e também roteirista das duas temporadas, trabalhando em parceria com meu sócio, Marcos Nisti, além de contribuir como diretora geral na primeira temporada. A motivação por trás de “Aruanas” estava profundamente enraizada na necessidade de abordar questões cruciais relacionadas à justiça climática. 

Reconhecendo a urgência das mudanças climáticas e seu impacto nas populações vulneráveis, sentimos a necessidade de provocar a conscientização de maneira acessível. Embora documentários sejam eficazes como “vacinas” instantâneas, a ficção, por meio do entretenimento, permite uma mudança de comportamento mais gradual, atingindo um público mais amplo. 

Com a ideia de uma série que se passa dentro de uma ONG ambiental, exploramos a possibilidade de abordar várias questões ao longo de muitas temporadas, inspirados por séries como “Grey’s Anatomy” e “Sob Pressão”, que se passam no ambiente de trabalho. Ao estabelecer parcerias com ONGs renomadas, como WWF, Greenpeace e Anistia Internacional, conseguimos criar personagens baseados em ativistas reais. 

“Aruanas” abordou temas cruciais na primeira temporada, concentrando-se na Amazônia, incluindo contaminação por mercúrio, exploração sexual infantil e os efeitos colaterais da mineração ilegal. A série foi um sucesso, e atraiu 35 milhões de espectadores por episódio durante dez semanas consecutivas. 

Apesar das preocupações em torno da polarização política, a obra foi recebida positivamente pelo público e teve um impacto significativo, com 89% dos espectadores procurando se engajar em ativismo e 90% demonstrando solidariedade prática à causa ambiental.  

Fale sobre o projeto “Criança: Alma do Negócio”. O que vocês abordam no filme? 

O “Criança: Alma do Negócio” foi nosso primeiro filme, feito com um orçamento bastante modesto. Lançado em 2008, na TV Cultura, teve um impacto significativo na programação infantil. Desafiando a norma de como criar programação infantil sem recorrer à publicidade direcionada às crianças, o filme provocou reflexões importantes sobre o tema.  

Recebemos feedback da TV Globo, reconhecendo o desafio que eles enfrentaram ao repensar a programação infantil. O documentário também desempenhou um papel crucial ao impulsionar a discussão de leis no Congresso relacionadas à publicidade infantil. 

Para nossa surpresa, o filme foi escolhido como tema de redação no Enem em 2014, levando jovens a refletirem sobre os efeitos prejudiciais da publicidade direcionada às crianças.  

Além desses filmes citados, você quer destacar algum outro? 

Quero destacar um filme chamado “Repense o Elogio”, disponível gratuitamente no YouTube. Este projeto foi realizado para a Avon como branded content, e acabou sendo exibido no South by Southwest, conquistando o prêmio AFI Awards. 

“Repense o Elogio” é um filme que aborda o impacto significativo das palavras durante a infância na formação da identidade e comportamento. Por meio de pesquisas, descobrimos que os elogios mais comuns dados a meninas são relacionados à beleza, ressaltando a delicadeza e, muitas vezes, comparando-a à uma princesa. Enquanto para os meninos, os elogios reforçam sua inteligência e coragem. 

Optamos por não entrevistar especialistas neste filme, mas sim crianças, jovens, pais e mães. A obra destaca a importância de termos cuidado com as palavras usadas com nossos filhos, enfatizando que os elogios devem estar relacionados à autonomia da criança. Aprendi, ao estar à frente desta produção, sobre a importância de elogiar aspectos nos quais a criança tem controle, promovendo um ambiente de autoestima saudável. 

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