Qual o papel do futebol na luta pela diversidade e no combate ao racismo?

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Opinião

Qual o papel do futebol na luta pela diversidade e no combate ao racismo?

No campeonato de 2022, podemos fazer a diferença no mundo esportivo mudando nossas próprias atitudes, nos posicionando em relação ao tema e abraçando a causa de peito aberto


23 de novembro de 2022 - 8h31

Lusail Promenade, no Catar, onde torcedores de alguns países ficam aglomerados no evento (Crédito: Arquivo pessoal/Luiza Maggessi)

O principal evento do futebol já começou e percebo que a cidade de Doha já está bem mais movimentada que na minha chegada. Já não é possível andar livremente pelo Souq Waqif, mercado mais popular da cidade, ou pela Corniche, um grande calçadão à beira mar, e chegar aos estádios está ficando mais difícil e lento. E, no meio disso tudo, um colega de trabalho perdeu o passaporte e se dirigiu até a polícia para fazer a comunicação da ocorrência. Estávamos eu, ele e uma outra colega nossa, que vestia bermuda e, por esta razão, foi impedida de entrar no local e precisou ficar no carro. Até aí, nada de novo, afinal, muito se falou sobre a cultura local antes mesmo de chegarmos a Doha.

Em uma outra ocasião, uma de nossas equipes se dirigiu ao Souq para produzir conteúdos com uma apresentadora da NWB. Desta vez a experiência teve uma característica diferente. Quem estava vestido com a camisa do Brasil foi muito assediado e a apresentadora precisou ser retirada do local, pois alguns homens, que pediam para tirar fotos, faziam questão de encostar nela.  Sabemos que o país é conhecido por ter regras e leis restritivas em relação às mulheres (na cerimônia de abertura, que aconteceu no dia 20, pudemos ver que algumas mulheres estavam indo a um estádio pela primeira vez), além de ter um histórico negativo quando se trata de grupos minorizados. Por esta razão, acredito ser nosso papel proporcionar espaço, voz e visibilidade para essas pessoas. Algumas seleções, como a da Alemanha, por exemplo, têm se manifestado sobre isso com frases em seus aviões que dizem “Diversidade vence”.

Além disso, Holanda, Inglaterra, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Noruega, Suécia, Suíça e País de Gales manifestaram interesse em usar uma braçadeira que preza pela diversidade, da campanha OneLove, que promove a inclusão e se opõe à discriminação. Porém, algumas seleções desistiram, pois podem ser penalizadas esportivamente. Mas, então, como podemos trazer à tona temas tão relevantes para a sociedade contemporânea? Há pouco tempo, o time da NWB viabilizou a criação do podcast Na Raça, apresentado por Bianca Santos, criadora de conteúdo e integrante da marca Desimpedidos, André Hernan, jornalista esportivo, Elton de Castro, idealizador do Reexistência LAB (comunidade que incentiva o desenvolvimento de pretos, mulheres e pessoas LGBTQIAP+), jornalista e consultor de produtos do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, e Marcelo Carvalho, criador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

A meta com esse programa é explorar a diversidade no mundo do futebol, bem como fomentar a participação do povo preto nas discussões esportivas em diversas plataformas. E este ano a Copa teve início no dia 20 de novembro, data em que também se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra. Como sabemos, ao longo de toda história do futebol, casos de racismo acontecem a todo momento, mas a maioria deles são deixados de lado e a denúncia não é levada adiante. Porém, em ano de campeonato mundial, precisamos ficar atentos para não esvaziarmos o discurso antirracista em detrimento do evento internacional e buscar aproveitar as oportunidades para debatermos o assunto, além de trazer mais aliados para este grande desafio. Claro que o posicionamento dos jogadores negros é importantíssímo, porém, não deve parar somente neles. Precisamos chegar nas instituições, nos patrocinadores, em outras seleções e em outros companheiros de time. Posto isso, fica a pergunta: qual o papel do futebol na luta contra a discriminação racial e como aproveitar o esporte para combatê-la?

Segundo dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, de 2014 a 2022 houve um crescimento de 180% no número de denúncias racistas no esporte. É um dado muito expressivo e, por isso, o posicionamento se faz cada vez mais necessário. Não basta apenas sustentar um discurso pontual ou condenar os racistas nas redes sociais. Barrar o racismo exige coragem e intenção. A mudança começa em nossas próprias atitudes e precisamos assumir nossa responsabilidade nesse processo de transformação. O papel das instituições no mundo do futebol, dos técnicos e dos jogadores será essencial para que episódios de discriminação sejam combatidos verdadeiramente em um dos eventos esportivos mais importantes do mundo.

Perceber-se negro no Brasil é um processo muitas vezes doloroso, pois as pessoas o farão descobrir esse fato da pior maneira possível, uma vez que sempre terá um comentário maldoso, uma fala racista a fazer sobre o tom da sua pele, o estilo do seu cabelo, a escolha da sua religião, ou até mesmo o seu jeito de se portar nos lugares. Em razão disso, no campeonato de 2022, podemos fazer a diferença no mundo esportivo mudando nossas próprias atitudes, nos posicionando em relação ao tema e abraçando a causa de peito aberto, seja você negro ou não. A mudança precisa partir de algum ponto, e por que não começar em uma competição que une cidadãos de diversas partes do globo?

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