Beneficiária do ProUni, para Deh Bastos maternidade a fez melhor profissional

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Beneficiária do ProUni, para Deh Bastos maternidade a fez melhor profissional

Diretora de Criação da Publicis iniciou sua carreira na comunicação promovendo o letramento racial através da plataforma “Criando Crianças Pretas”


16 de maio de 2023 - 11h56

Deh Bastos é Diretora de Criação na Publicis, fundadora do Criando Crianças Pretas e Co-autora de "Maternidades Plurais" (Crédito: Divulgação)

Deh Bastos é Diretora de Criação na Publicis, fundadora do Criando Crianças Pretas e Co-autora de “Maternidades Plurais” (Crédito: Divulgação)

Com um alto cargo na área de Criação dentro de uma das maiores agências de publicidade do país, Deh Bastos faz questão de destacar em seu Linkedin que é mãe de José. “Das tantas coisas que eu estou, eu sou mesmo a mãe. E ser a mãe do José me trouxe outros olhares, outras preocupações, outros medos, outros KPIs. É uma outra perspectiva de vida.”  

A maternidade trouxe a ela oportunidades profissionais que não teve anteriormente e a fez repensar sua maneira de criar. Fundadora da plataforma de letramento racial “Criando Crianças Pretas”, Deh acredita que tornar-se mãe fez com que ela se redescobrisse como pessoa e profissional, impulsionando sua criatividade. “Quando nasce um filho, morre uma mulher. Mas dali, nasce outra mulher, a partir da perspectiva da criança. Você vê o mundo de outro jeito. E se você vê o mundo de outro jeito, você vai criar de outro jeito.” 

Inconformada com as fichas técnicas das campanhas de Dias das Mães, Deh faz um chamado para a mudança. “Como pode uma narrativa tão única na perspectiva da mãe ser feita por homens? O roteiro, a ideia, o conceito, tudo assinado por homens. E mesmo que não tenha sido feito só por homens, na ficha técnica, no crédito, só há homens. Mães criativas existem e elas são muito boas. Precisamos reforçar a importância da ficha técnica.” 

Confira a entrevista com a Diretora de Criação. 

Conte um pouco sobre você e sua trajetória profissional. 

Eu sempre quis fazer comunicação, porém, chegar até a universidade foi um caminho difícil. Mas consegui, através do ProUni, estudar e fazer faculdade. Hoje, sou formada em publicidade e propaganda. No início, tive muita dificuldade para entrar no mercado de trabalho, porque eu já trabalhava para ajudar a minha família. Então, eu fui perifericamente trabalhando com outras coisas até que eu chegasse ao que eu queria de fato, que era a criação publicitária. 

Mas quando eu fiquei grávida, desisti de tentar uma carreira na comunicação. Ao mesmo tempo, comecei a ter contato com letramento racial e iniciei um projeto chamado ‘Criando Crianças Pretas’ no Instagram, como uma forma de comunicar e levar educação antirracista para as pessoas. A partir daí, as pessoas começaram a perceber a forma que eu me comunicava e que eu era redatora. Depois de fazer alguns frilas e consultorias, cheguei ao posto de Diretora de Criação da Publicis. 

Como surgiu o projeto “Criando Crianças Pretas”? E como foi a recepção? 

Quando eu estava grávida, eu já tinha um projeto de comunicação entre mães com algumas amigas chamado ‘Materna Rede’, em que a gente se comunicava através de WhatsApp. Ali, comecei a entender o quanto as mães estavam a fim de ouvir sobre como criar uma criança, tanto da parte básica, dos cuidados, quanto da parte de educação consciente. Então, com o letramento racial, percebi que precisávamos falar mais sobre as responsabilidades e necessidades dos cuidadores frente à educação da criança sobre as formas de opressão.  

Logo, eu criei uma conta no Instagram, que era a forma mais fácil de me comunicar. Tudo o que eu estudava, de uma forma mais densa e acadêmica, eu transformava numa linguagem mais leve, acessível e prática. E isso começou a atingir as pessoas, porque estávamos bem naquele momento em que estávamos aprendendo sobre comunicação não violenta e disciplina positiva. Então, ficou claro que precisávamos educar as crianças de uma forma diferente. O projeto supriu muito bem essa lacuna e teve uma grande visibilidade na época.

Você também escreveu o livro, “Maternidades Plurais”. Queria que você falasse sobre esse conceito, o que são as maternidades plurais?  

Eu sou co-autora, mas escrever um livro foi o maior desafio de toda a minha vida, e eu não faria isso pela primeira vez se não fosse com outras mães. Mas, ao mesmo tempo, o convite era incrível, porque foi feito pelo Celso Fontanar, da Companhia das Letras, para que a gente desmistificasse o padrão de mãe, que não existe só um jeito de maternar e que não fazia sentido ter um padrão do que é ser mãe. Então, eu contei como que eu renasci como uma mulher preta quando o meu filho nasceu. Tínhamos relatos de uma mãe atípica, que também era negra, de uma mãe solo, mães lésbicas, mãe por adoção e uma madrasta.

Qual a sua opinião sobre como a publicidade aborda a maternidade? 

O que estamos entregando como filme está muito legal, porque estamos considerando as intersecções e você vê muitas mães diversas nos filmes. Então, estamos num caminho positivo. Agora, o que a gente tem na ficha técnica é tremendamente triste. As agências começaram a divulgar os trabalhos do Dia das Mães, e dois filmes de marcas muito grandes tinham a ficha técnica criativa feita por homens. 

Então, são dois passos para frente e três para trás, sabe? Como pode uma narrativa tão única na perspectiva da mãe ser feita por dois homens? O roteiro, a ideia, o conceito, tudo foi feito por dois homens. E mesmo que não tenha sido feito só por homens, na ficha técnica, no crédito, só há homens. É terrível porque a narrativa do filme é muito tensa sobre a mãe sobrecarregada, a mãe que faz tudo o tempo todo e acabaram reforçando esse estereótipo. É um desserviço para as mães.  

Existem tantas mães dentro do mercado criativo, e inclusive, eu sou muito mais criativa depois que tive o meu filho. Então, é muito triste ver que o mercado ainda não reflete esse apoio à maternidade e invisibiliza as mulheres. Mães criativas existem e elas são muito boas. Precisamos reforçar a importância da ficha técnica.

No momento em que a maternidade veio para você, como você encarou a realidade de ser mãe e trabalhar? 

Apesar de eu ser uma mulher negra, preta, gorda, eu sempre tive uma estrutura muito bem-organizada para quando meu filho chegasse ao mundo. Eu sou casada, o pai do meu filho é extremamente participativo, e a gente tinha uma condição boa. A dificuldade era que eu não tinha conseguido entrar no mercado de trabalho por falta de oportunidade. E eu realmente achei que era o fim. Se eu não havia conseguido até aquele momento, imagina com um filho.  

Num papo com a Dani Arrais (sócia-fundadora da Contente), ela me disse que os filhos vinham com um pãozinho embaixo do braço. Isso quer dizer que a criança traz prosperidade. É claro que eu não estou romantizando a maternidade, porque dentro do meu universo, onde eu tinha pai presente e muitos adultos para cuidar dele e deixá-lo enquanto eu estava trabalhando, foi perfeito, porque as oportunidades começaram a aparecer. E eu só consegui aproveitar essas oportunidades, porque eu tinha uma rede de apoio, o que não é o caso de muitas mulheres. 

E o mercado não está pronto para absorver as mulheres com suas demandas de mãe. Por isso que a gente vê cada vez mais homens nesses lugares, porque quando nasce um filho para o homem, ele é promovido, o que significa que ele está mais experiente. Já uma mulher quando ganha um filho, ela geralmente vira um problema para a empresa por conta das entregas e das múltiplas jornadas como mãe.

De que forma a maternidade te deixou mais criativa? Como a maternidade influenciou a sua criatividade?  

Para mim, criatividade é um músculo que você precisa exercitar. E o exercício da criatividade é o seu poder de fazer novos usos para as coisas que já existem, dando novos sentidos para as coisas. Para mim, a criatividade está altamente ligada à capacidade que você tem de absorver a rua e devolver aquilo em forma de produto. 

Quando nasce um filho, morre uma mulher. Mas dali, nasce outra mulher, a partir da perspectiva da criança. Você vê o mundo de outro jeito. E se você vê o mundo de outro jeito, você vai criar de outro jeito. Hoje em dia, eu tenho o José no meu LinkedIn, porque das tantas coisas que eu estou, eu sou mesmo a mãe. E ser a mãe do José me trouxe outros olhares, outras preocupações, outros medos, outros KPIs. É uma outra perspectiva de vida.

Você tem algum conselho para outras mães que enfrentam desafios na profissão? 

Tenha um filho, se você quiser. Eu sou muito a favor de que a maternidade não pode ser compulsória. Eu conheço muitas amigas que não querem ser mãe e eu as apoio incondicionalmente. Mas se passar na sua cabeça a ideia de ter um filho, e se você tiver condição, não perca tempo. Tenham filhos do jeito que dá, da forma como dá. Nada nunca vai ser perfeito.  

Eu vi esses dias um conceito de campanha que dizia que o amor de mãe é um amor completo. É completo, mas não precisa ser inteiro. Você não está pronta nunca. É completo porque é plenitude. Você tem que estar ali plena, mas não necessariamente inteira. Então, se você puder, não fique esperando pelas coisas acontecerem, não. Na verdade, é um grande credo que delícia. Não é fácil. O bicho é doido, o negócio é pesado, mas é bem bom.  

E sobre o seu estilo de liderança. Quais habilidades ou características você leva em consideração na hora de liderar? 

No Brasil, às vezes colocamos a mulher líder no papel de mãe. No sentido do maternar, do cuidar de todo mundo. A mãe é uma passarinha, ela alimenta os filhos para que eles possam se desenvolver. Sempre tive muita preocupação de não ser essa figura para as pessoas que eu estou liderando. Então, eu tento fazer uma gestão horizontal, que é baseada na confiança, na conversa, mas também baseada na entrega. Cada um é responsável pela sua carreira.  

Então, eu tenho um desafio diário de não cair no modo maternar. Não necessariamente da maternidade, mas do cuidar da pessoa. Eu tomo cuidado diariamente para deixar as pessoas livres, mas ao mesmo tempo motivadas e alimentadas para poder seguir. Mas não sendo mãe delas. 

Por fim, cite três filmes, séries ou livros que você indica para quem quer refletir sobre a maternidade. 

Eu gosto muito da série “Pose”, da Netflix. A Blanca (protagonista), que é uma mulher trans, é um exemplo de maternidade. A forma como ela inspira, mas ao mesmo tempo defende e não esquece dela mesma é perfeita. O modo como eles confiam nela e como aquela casa transborda amor, é sensacional. Então, para mim, não foi feito ainda um exemplo melhor de maternidade. Para o desespero da família tradicional brasileira, ‘Pose’ é a melhor referência de maternidade. 

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