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Inspiração

Vanessa Mathias: “O arquétipo do herói não funciona mais”

A co-fundadora da White Rabbit e consultora de tendências reflete sobre como será a liderança do futuro e compartilha suas inspirações 


1 de julho de 2022 - 9h47

Por Lídia Capitani e Michelle Borborema

 

Vanessa Mathias é co-fundadora da White Rabbit e consultora de tendências futuras e inovação (Crédito: Divulgação)

Para Vanessa Mathias, vivemos um período de mudança de paradigmas quando o assunto é modelo de liderança. De acordo com a co-fundadora da White Rabbit e consultora de tendências futuras e inovação, a construção dos líderes do futuro envolve a adoção de características consideradas femininas, além de novas mentalidades e valores fundamentalmente humanos.

“Podemos falar que a energia feminina — subjetiva, emocional e com atenção a múltiplas direções — tem um papel fundamental nessa nova liderança. Importante entender que energia feminina não vem necessariamente das mulheres, mas de todos os líderes que se abrem para explorar essas fontes para além da objetividade, da razão e do foco, que compõem a energia tipicamente masculina”.

Confira nossa entrevista com Vanessa, que tem 17 anos de experiência em pesquisa de mercado, mídia, imagem de marca e posicionamento para grandes empresas, e hoje trabalha prevendo cenários possíveis para a sociedade e as companhias. A executiva é ainda especialista em modos de conexão entre as pessoas por meio da tecnologia e do universo digital. 

 

Quais características ou habilidades você considera essenciais numa liderança? Como você as desenvolve e as alimenta regularmente? 

Interessante sua pergunta, pois acabamos de fazer um estudo de liderança com a Globo sobre as habilidades necessárias para os líderes no médio prazo. Na pesquisa, entendemos que o arquétipo do líder-herói, ou seja, daquela liderança que se desenvolve sozinha, está em franco declínio. Ao mesmo tempo, percebemos também que há novos paradigmas germinando, junto com a necessidade de uma liderança ecossistêmica.

Estamos num modelo de transição, onde o paradigma “egossistêmico” (do “é sobre mim”) passa a ser “ecossistêmico” (do “é sobre nós”), ou seja, estruturado em interesses e necessidades de todos e compartilhado com a comunidade. Enquanto a maioria das organizações está centrada nos clientes e nos stakeholders, os líderes do novo momento estão migrando sua maneira de liderar centrada em uma visão coletiva mais ampla. Dentro desse novo paradigma ecossistêmico, onde o arquétipo do herói não funciona mais, vemos outros ganhando força.

Chegamos a um ponto de inflexão. Nossas ações e decisões ao longo do tempo vêm causando graves consequências sociais e planetárias. Se nada for feito, chegaremos a uma situação irreversível. Precisamos de líderes, formais e informais, que atuem como propulsores da nossa capacidade, individual e coletiva, de nos tornar agentes ativos de regeneração nas nossas comunidades e ecossistemas. Uma liderança com novas mentalidades e com valores fundamentalmente humanos.

Não há e nem haverá um único jeito de liderar: há um conjunto de múltiplas mentalidades e competências, novas e atemporais, para podermos caminhar em direção a novos níveis de consciência. A liderança ecossistêmica não é um alvo a ser alcançado. São sinais do futuro, para podermos repensar a liderança que desejamos construir e que faça sentido para o nosso contexto.

Essa evolução de consciência é um chamado para ressignificar a liderança e buscarmos novas formas de liderar. Uma liderança mais humanizada e eco-centrada, capaz de reimaginar e co-construir caminhos futuros. É sobre líderes que sejam capazes de prosperar, mesmo diante de um contexto de digitalização e impermanência. É um chamado para repensarmos o papel e o impacto da liderança do amanhã. 

Nesse sentido, podemos falar que a energia feminina — subjetiva, emocional e com atenção a múltiplas direções — tem um papel fundamental nessa nova liderança. Importante entender que energia feminina não vem necessariamente das mulheres, mas de todos os líderes que se abrem para explorar essas fontes para além da objetividade, da razão e do foco, elementos que compõem a energia tipicamente masculina.

Qual é o seu maior desafio no dia a dia da gestão de uma empresa que estuda tendências e futuro? O que faz para encará-lo e/ou superá-lo? 

Meu maior desafio é olhar para o futuro, inclusive para o futuro longínquo e multigeracional,  ao mesmo tempo em que coloco as primeiras peças do Lego para a construção do agora. Minha forma de encarar isso, nem sempre efetiva, é separar janelas na agenda para explorar diferentes espaços de tempo – tanto o passado, para entender como chegamos até aqui, como os futuros. Isso nos ajuda a fazer escolhas no presente com base nessa visão.

Você já teve algum tipo de sentimento de autossabotagem? Como lida com essa situação e quais dicas dá para as mulheres que se sentem assim nos projetos, áreas e lugares em que atuam? 

Todos os dias. O que me ajuda muito é contar com uma rede de pessoas e mulheres fortes. Eu recomendo tomar um tempo para olhar para suas realizações e ter autocuidado no julgamento de si mesma. 

Quais mulheres inspiradoras você segue, lê e observa? Como elas te inspiram? 

Tenho a sorte de participar de muitas comunidades de mulheres, e as pessoas que articulam esses grupos são muito relevantes para mim. A troca de experiências é incrível. Uma delas é a “She”, articulada por Andrea Bisker e Marienne Coutinho. Outra é a “Mulheres do Brasil”, de empreendedoras, com a Luiza Trajano como uma das principais embaixadoras. Estou também na “Desenquadradas”, que teve um papel muito relevante no meu processo de entendimento dos meus privilégios como mulher branca. 

Por fim, tem alguma dica de séries, filmes, livros e/ou músicas que consumiu recentemente e te fizeram refletir sobre a condição e o papel das mulheres? 

Estou lendo o “Sejamos todos feministas”, da Chimamanda Ngozi Adichie. Estou grávida de um menino e este livro abriu uma clareira na minha floresta mental sobre a importância de educar homens e mulheres sob novos paradigmas.

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