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IA exige novas habilidades no mercado de trabalho

Especialistas da PwC e Michael Page avaliam competências decorrentes da evolução da IA e citam adaptações necessárias para a manutenção da competitividade

i 29 de agosto de 2025 - 6h02

A pesquisa AI Jobs Barometer, da PwC, indica que a agricultura registrou o maior crescimento em demanda de vagas de emprego de exposição à inteligência artificial (IA) a nível global. No Brasil, os empregos expostos à tecnologia em atividades de suporte e automação de tarefas humanas ultrapassam 600% e 400%, respectivamente.

IA trabalho

Evolução da IA exige competências tanto do lado de candidatos, como também da área de recursos humanos (Crédito: Shutterstock AI/Shutterstock)

A consultoria norte-americana define um trabalho como “exposto à IA” como aquele que contém muitas tarefas nas quais as ferramentas podem ser empregadas. A empresa analisou cerca de um bilhão de anúncios de emprego e milhares de relatórios financeiros de empresas em seis continentes para revelar o impacto da IA em empregos, salários, habilidades e produtividade.

Os dados provam como a IA está transformando o mercado de trabalho e os processos de recrutamento de diversas maneiras, refletindo tanto nas demandas por habilidades quanto na forma como as empresas avaliam os candidatos em processos de recrutamento e seleção.

Camila Cinquetti, sócia e líder de workforce na PwC Brasil, indica que as funções automatizáveis estão sofrendo a maior disrupção de habilidades, à medida que a IA assume algumas tarefas, incluindo as rotineiras e repetitivas.

“Em contraste, as funções que chamamos de ‘aprimoráveis’ por IA estão vivenciando uma mudança de habilidades mais gradual. Como as funções automatizáveis estão sofrendo uma forte disrupção de habilidades, nossos dados sugerem que as funções automatizáveis estão sendo remodeladas para criar mais valor, talvez migrando para tarefas que exigem habilidades mais complexas ou criativas”, diz.

A consultoria de recursos humanos Michael Page aponta que as habilidades em IA significam combinar quatro dimensões: a fluência de ferramentas, entendendo quando e como usar as soluções; pensamento crítico e validação, sabendo como checar fontes, medir “alucinações da ferramenta” e documentar limites; a ética, no que diz respeito à questões de privacidade e vieses, por exemplo; e a integração ao fluxo de trabalho.

Juliana França, gerente-executiva da Michael Page, chama a atenção também para uma mudança nos critérios de contratação com uma espécie de alfabetização em IA e dados sendo vistos como requisito transversal, mesmo fora da área de tecnologia.

O reflexo nos recursos humanos

Outro levantamento, este realizado pela Universidade de Stanford, já revela uma desaceleração de contratações em determinadas funções, como desenvolvimento de software e suporte ao cliente — provavelmente em decorrência da IA. Há, sobretudo, maior ênfase para aqueles entre 22 e 25 anos, com uma queda de 16% desde o final de 2022.

Por outro lado, a PwC mostra que as exigências de habilidades estão mudando 66% mais rápido em funções expostas às ferramentas, evidenciando a complexidade das competências exigidas.

Segundo a sócia e líder de workforce na PwC Brasil, isso sugere que empregos mais expostos à IA tendem a apresentar maiores mudanças de habilidades provavelmente devido à evolução dos requisitos da função ao longo dos anos. “Ou seja, o cenário ainda está se moldando, indicando maior adaptação e demandas de habilidades em evolução nessas funções”, diz.

A transformação no cenário demanda ajustes nos processos seletivos. Segundo a Michael Page, alguns são:

  • Estudos de caso com IA permitida e política clara, solicitando o passo a passo, os prompts e a checagem a fim de medir e testar conhecimento em ferramentas de IA;
  • Entrevistas baseadas em evidências, explorando situações reais em que o candidato tenha melhorado um processo com inteligência artificial e especificando quais métricas mudaram;
  • Mini prova prática cronometrada, com dados para observar o raciocínio do candidato, não só o resultado.

Ainda que as exigências das empresas incluam conhecimento técnico, a avaliação perpassa por um equilíbrio com as habilidades comportamentais: “No curto prazo, a inteligência artificial vira critério de desempate em posições não técnicas. Quem prova ganho de produtividade com IA sai na frente – veja, aqui falamos muito mais sobre o comportamental, do que sobre o técnico”, esclarece a gerente-executiva da Michael Page.

No médio prazo, acrescenta, a IA vira requisito de base semelhante ao Excel no passado, com diferenciação indo para integração a processos, governança e melhoria contínua, acrescenta.

Oportunidades e desafios

A proporção de vagas de empregos que exigem competências em IA está crescendo especialmente rápido nos setores que foram pioneiros na contratação de profissionais com essas competências – como informação e comunicação, serviços profissionais e serviços financeiros, de acordo com a PwC. Isso sugere, segundo Camila, que essas indústrias estão colhendo benefícios e intensificando seus investimentos em IA.

Empresas já têm dedicado parte de seu planejamento para a tecnologia e desenvolvendo profissionais para exercer um olhar holístico sobre os negócios. Na última quarta-feira, 27, o Magalu anunciou um programa de trainee voltado à atuação com IA, de olho no futuro do varejo. A ideia é que os profissionais não atuem apenas em tecnologia, mas em outras áreas da organização.

É necessário ter formação em cursos de ciências exatas e a varejista fornecerá cursos técnicos em parceria com a Alura, bem como formação comportamental sobre os valores do grupo.

Para aqueles que já estão no mercado de trabalho, é preciso estar atento às mudanças que vêm ocorrendo em decorrência da tecnologia dentro da empresa, adequando demandas e comportamentos e habilidades interpessoais. As especialistas também chamam a atenção para a certificação em IA, a partir do desenvolvimento técnico, por meio de cursos oferecidos por big techs ou outras empresas especializadas.

Do lado do RH, também se fazem necessárias novas competências, como o design de avaliação com inteligência artificial na elaboração de cases práticos que façam a distinção entre as habilidades humanas e automação, por exemplo.

Entre os principais desafios do cenário, contudo, a porta-voz da Michael Page menciona os de superestimar as certificações e subestimar a capacidade de validação prática. Também entram na conta a checagem de segurança e compliance ainda imatura, com risco de vazamento de dados sensíveis, e a mensuração do impacto sem linha de base ou referência.

“A inteligência artificial já substitui tarefas, não profissionais por inteiro, na maioria dos casos. Onde há regras claras e alto volume, a automação avança. Onde há ambiguidade, relacionamento e julgamento regulatório, a complementaridade prevalece”, alerta. “O profissional que une domínio técnico do negócio com ‘alfabetização em IA’ amplia relevância e empregabilidade”.