Marketing de inclusão

Dados de quebrada: por que falta escuta ativa para entender esse público?

Enquanto marcas investem milhões em pesquisas de mercado, raramente olham com profundidade para as periferias brasileiras

Joildo Santos

CEO do Grupo Cria Brasil 26 de junho de 2025 - 14h00

É uma contradição gritante: enquanto marcas investem milhões em pesquisas de mercado, raramente olham com profundidade para as periferias brasileiras. Onde milhões de consumidores vivem e constroem realidades complexas, o que existe é um vazio de dados que realmente importam. Há fartura de números sobre pobreza e carências. Mas onde estão os dados sobre a potência econômica das vielas? A efervescência cultural? O comportamento de consumo da quebrada, com seus próprios códigos e prioridades?

Essa ausência de dados estruturados – e, pior, de escuta ativa – compromete brutalmente estratégias de comunicação. Marcas seguem no escuro, baseadas em suposições rasas e preconceituosas. O resultado? Erram o tom, desperdiçam orçamentos e se afastam de um público influente e transformador.

Vivemos na era do big data. Mas, quando o foco é a periferia, a tecnologia falha. Os dados disponíveis são rasos, limitados a indicadores básicos. Faltam informações sobre marcas relevantes para esses territórios, canais de comunicação eficazes, aspirações, rotinas e prioridades reais das famílias periféricas. Um estudo da Data-Makers, com Gerando Falcões e ESPM, revelou que as classes D e E pretendem consumir mais em 2025 que as A, B e C. Ainda assim, são as que menos se identificam com a comunicação das marcas.

O potencial de consumo das favelas ultrapassa R$ 200 bilhões ao ano. Quase metade dos moradores tem seu próprio negócio. Mesmo assim, as marcas recorrem a estereótipos e achismos. O que funciona na bolha criativa não ressoa na realidade da quebrada. As campanhas soam falsas. Produtos não atendem às necessidades reais. O resultado é um público cada vez mais distante e crítico.

Se os dados são escassos, a saída é a escuta – mas uma escuta ativa e contínua. É preciso sair do escritório, ir para o território, conversar, ouvir, entender. Marcas que ouvem descobrem que a favela não é homogênea: é múltipla, criativa e potente. Descobrem também que soluções criadas dentro da favela são mais eficazes do que qualquer intervenção externa.

A pesquisa citada mostra, por exemplo, que moradores das classes D e E são altamente engajados com causas sociais, ambientais e de diversidade. Em alguns pontos, mais até que classes mais altas. Também aponta o protagonismo das mulheres nas decisões de consumo. Tudo isso desmonta estereótipos e revela um consumidor atento, exigente e com valores claros.

Ignorar esse movimento é um erro estratégico grave. Enquanto isso, a quebrada segue criando suas próprias soluções, fortalecendo redes e valorizando marcas que respeitam sua realidade. A favela não é um problema a resolver, é um mercado a ser compreendido e valorizado. Quem quiser ser relevante precisa mudar a lente: chega de achismos. É hora de dados reais, escuta ativa e ação com propósito.