Cannes cresceu muito, mas esqueceu de inovar

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Cannes cresceu muito, mas esqueceu de inovar

Observar como algumas startups estão chacoalhando players tradicionais do mercado é uma necessidade e um desafio para os organizadores do festival


17 de julho de 2017 - 16h45

Os inúmeros questionamentos que desabam sobre Cannes são muito naturais. Levar uma chacoalhada pública do todo-poderoso Martin Sorrell e ainda sofrer o baque da retirada de inscrições do grupo Publicis para 2018, tudo em menos de 24 horas, foi um choque de realidade que os anos de crescimento do maior festival de publicidade do mundo, de uma certa forma, encobriram. O festival, que nasceu para celebrar o cinema publicitário em 1953, saltou entre 1993 e 2016 para inacreditáveis 24 categorias.

 

Palais Des Festivals em 2017 (crédito: Eduardo Lopes)

O crescimento atendeu a uma demanda por reconhecimento da criatividade, que de fato nunca esteve restrita aos filmes, mas criou uma ilusão de que crescer era inovar.

A origem destes impulsos questionadores transcende o mercado publicitário. Em tempos de Uber, Airbnb e Tesla, temos uma sociedade que pergunta: Qual valor novo Cannes tem trazido nos últimos anos para o mercado e a própria sociedade?

Coisas esquisitas de uma nova era, que clama sair de comportamentos estanques, cartesianamente previsível e do binário ganhou/perdeu. Sabemos que não é um Leão a mais ou a menos que fará um cliente escolher a agência X ou a Y. O Leão não é – talvez nunca tenha sido – mais capaz de medir o real valor que uma agência pode gerar aos seus clientes. Além disso, usufruir destes momentos de glamour e exaltação dos egos está custando caro demais. Quem vai pagar essa conta?

O ponto alto da festa foi, sem dúvida, o “Fearless Girl”, que ajuda a reflexão sobre o preconceito inconsciente que assola a mulher mundialmente, contudo o tamanho da influência de Cannes na publicidade e, consequentemente, na sociedade é muito maior do que o evento significou até hoje. Será que essa força não poderia ser usada de uma outra forma (enquanto ela ainda existe)?

Um caminho interessante é usar as startups como inspiração.

Em praticamente todos os negócios tradicionais há o mesmo incômodo; e Cannes ainda é um negócio tradicional! Como desenvolver uma cultura de inovação? Como criar valor novo para navegar neste ambiente onde a revolução tecnológica transforma a forma de produzir, distribuir e consumir produtos e serviços?

O que fez a Tesla, fundada em 2003, ter o mesmo valor de mercado que a Ford, fundada em 1903? O que fez apenas uma das cinco empresas que mais registraram patentes de energia renovável ser do setor energético? Por que os negócios tradicionais estão com dificuldade de inovar?

Obtive um insight interessante de uma surpreendente criança de 80 anos de idade: Sylvio Zilber, o diretor de teatro que há seis sábados nos recicla em novas vivências para uso em workshops. “Não estamos vivendo uma era de mudanças, mas uma mudança de era. Nosso mundo foi construído em cima do conceito de circuito, linear. A nova era é em rede, complexa. As conexões não seguem uma ordem natural”. Um mundo conectado em forma de rede não é binário. Olhem os adolescentes: tudo ao mesmo tempo e agora! TV, celular, música e, se tiver prova amanhã, livro da escola. Nós fomos ensinados a pensar linear e sequencialmente, desde 26 séculos atrás, quando surgiu a lógica. Nossos professores, nossos líderes, nossos pais são binários.

A maioria dos negócios ainda são binários, lineares, pensam como circuito e em sequência. São equilibrados e desenvolvem seus planos buscando a certeza numa era da incerteza. Desta forma, as organizações existentes administram muito bem a riqueza, mas estão com dificuldade de gerá-la.

As organizações precisam mudar o modo de pensar, sentir e agir.

As startups operam em um modelo bem diferente. Elas pensam em rede, fazem conexões aleatórias, piramidam (ideias em cima de ideias), são equilibristas ao operarem em condições de profunda incerteza (a necessidade da certeza é uma grande barreira para a geração de inovação). Saber navegar em um ambiente de “não sei” é um grande desafio para os negócios tradicionais, acostumados com a previsibilidade.

A espinha dorsal deste novo mindset startup está na coesão por um propósito único, na colocação do cliente no centro da decisão, na flexibilidade e na rapidez para agir gerando um processo criativo e de tomada de decisão de fora para dentro. Como exemplo, um processo criativo e decisório de dentro para fora perguntaria: Como faremos para melhorar Cannes? Inúmeras respostas surgiriam daí: novos locais, eventos paralelos, facilidades.

Como diz um grande amigo e fundador de várias startups, Guilherme Cerqueira, CEO da Worthix: “Isso é dinheiro velho”. Agora, um processo de fora para dentro perguntaria: O que o mundo espera de Cannes? Com essa nova perspectiva, enxergando as situações de forma integrada, surgem respostas como a do Uber e da Tesla. “Isso é dinheiro novo, algo que não existia, no qual ninguém estava ganhando dinheiro em cima disso. Se o cliente está olhando para esquerda, não vou puxar o rosto dele. Vou correr para me colocar na frente dele”, diz Guilherme.

A indústria está sempre pensando em agregar valor. Ampliando em cima de algo que já existe. O que a startup faz é colocar a sandália do cliente para gerar algo novo e, depois, ser flexível e ágil para transformar a ideia em realidade. Observar como algumas startups estão chacoalhando players tradicionais do mercado é uma necessidade e um desafio para os organizadores dos Cannes Lions.

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