Libra: valor de face

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Libra: valor de face

Uma das possibilidades mais interessantes da nova moeda é poder de se tornar facilmente o ‘meio de troca’ nas transações entre consumidores dispostos a entregar seus dados por algum valor


9 de julho de 2019 - 6h00

(Crédito: iStock/ Nuthawut Somsuk)

Na mesma semana que o rosé rolava solto em Cannes, o Facebook anunciou a criação da Libra, um novo meio de troca combinando a tecnologia de blockchain com um sistema de garantias baseado em uma cesta de moedas e títulos (o que cria certa estabilidade em termos do seu valor de conversão ao longo do tempo, ao contrário do bitcoin) e uma rede de meios de pagamento que inclui Visa, Mastercard e PayPal, além de empresas de tecnologia e serviços como Uber e Spotify.

Se der certo (e bota “se” nisso), a iniciativa pode transformar o sistema financeiro, criar mercados baseados em micropagamentos instantâneos e tornar muito mais fácil separar o consumidor do seu dinheiro, o que afinal é também um objetivo importante da maior parte das campanhas publicitárias.

A discussão contemporânea sobre a moeda e seu impacto na economia é enquadrada pela noção keynesiana do valor monetário como uma referência para mercados, nos quais seus integrantes operam de forma descentralizada, trazendo estabilidade na relação de troca entre bens e serviços e também entre passado e futuro (é óbvio que estou fazendo uma simplificação brutal de um tema controverso).

O ponto central nesse aspecto é que o papel de “fiador” destes meios foi ocupado por impérios, pela Igreja Católica, por famílias ou ligas profissionais e, aproximadamente nos últimos 200 anos, pelo Estado, por meio de um sistema tecnológico extremamente custoso. Mas, em setembro de 1992, “armado” com computadores e informação, George Soros colocou o banco central da Inglaterra nas cordas, forçando uma desvalorização da Libra (Esterlina), e demonstrando que empresas (no caso, seu fundo de investimentos) poderiam desafiar o papel de “guardião da moeda” dos bancos centrais.

Supondo que a iniciativa do Facebook seja capaz de convencer os reguladores que eles não irão “beijar a lona” uma segunda vez, qual é o impacto potencial da Libra e como essa discussão se combina com a questão da credibilidade das marcas (outro tema importante em Cannes este ano)?

Embora partindo de uma base potencial de usuários simplesmente colossal, a adoção de uma moeda depende, fundamentalmente, da credibilidade de seu emissor. E, nesse aspecto, o Facebook precisa recuperar o terreno perdido com os problemas que enfrentou nos últimos anos (Cambridge Analytica etc.) e a crescente conscientização do consumidor sobre o valor dos seus dados pessoais. No meu entender, essa é uma das mais interessantes possibilidades da nova moeda: ela pode se tornar facilmente o “meio de troca” nas transações entre consumidores dispostos a entregar seus dados por algum valor. Ou seja, toda vez que eu permito que uma empresa use meus dados para compor algum produto ou serviço de um terceiro, poderia receber um crédito em Libras para ser gasto dentro do ecossistema das empresas ligadas à iniciativa. Afinal, não pode ser simples acaso que Christian Catalini, economista responsável pela iniciativa do Facebook, tenha passado os últimos anos como professor do MIT estudando os contextos sociais de adoção de criptomoedas.

Existe uma especificidade brasileira que pode representar um desafio adicional para o Facebook: de maneira geral, as principais instituições bancárias brasileiras gozam de uma reputação razoável entre os jovens. No ano passado, Adilson Ferrarezi, diretor de soluções de investimentos do Bradesco, fez entrevistas e uma enquete com mais de 200 jovens brasileiros de classe média e média alta para entender como eles confiavam nos bancos e nas empresas de tecnologia para obter informações e cuidar de seus investimentos (full disclousure: a pesquisa faz parte da dissertação de mestrado dele na FGV, da qual fui orientador).

Nosso objetivo era estudar como a comunicação e a tecnologia contribuíam para a construção do principal ativo de um banco: a confiança. Descobrimos que, apesar de críticos em relação às formas de comunicação destas instituições, os jovens brasileiros acreditam que nos próximos cinco anos os bancos saberão tomar melhor conta do seu dinheiro que as empresas de tecnologia, resultado muitas vezes oposto ao que verificamos em pesquisas similares nos Estados Unidos e na Europa. Nossa hipótese é que, como as grandes crises bancárias nacionais ocorreram na década de 1990, e não em 2008/2010 como em outros países, os jovens brasileiros não têm experiência direta de uma crise deste tipo, o que beneficia a credibilidade das empresas do setor.

Obviamente, isso não tira a relevância do anúncio da Libra dentro do contexto sócio- técnico que estamos vivendo: enfraquecimento das estruturas tradicionais na política, na comunicação, na educação e muito proximamente nas finanças, o aparecimento de novas formas de organização social (o mercado é uma instituição social por excelência) e um crescente questionamento da relação entre empresas, indivíduos, governos e o planeta. A próxima década promete.

*Crédito da foto no topo:  Simon Steinberger/Pixabay

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