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Inspiração

Agatha Kim: liderar é ficar confortável com o desconforto 

A vice-presidente de estratégia da BETC Havas diz quais habilidades considera essenciais como liderança e compartilha dicas culturais e referências

Michelle Borborema
18 de maio de 2022 - 0h12

Agatha Kim é vice-presidente de estratégia da BETC Havas (Crédito: Divulgação)

Para Agatha Kim, vice-presidente de estratégia da BETC Havas, a liderança está diretamente associada a trazer para as pessoas a perspectiva de onde se quer chegar e com que valores, e fazer com que isso seja compartilhado entre elas. Na área de estratégia, onde a executiva tem mais de 16 anos de experiência, ela diz que é preciso trazer pilares claros sobre como a disciplina pode ajudar no crescimento das marcas, na transformação dos negócios e no impacto nas pessoas. E, a partir daí, dar autonomia e condições para que o time se desenvolva e crie da melhor maneira. 

“Para isso, acredito ser necessário ter grande capacidade de escuta das pessoas e do mundo, equilibrar momentos de disciplina e flexibilidade, e sempre estar aberta ao aprendizado, ou seja, é preciso saber que não sabe”, diz. 

Confira abaixo nossa conversa com Kim, que passou por empresas como Avon e Diageo, além das agências W3haus e JWT. Ela também é jurada do Effie Brasil, Latam e Global, AME Awards, El Ojo de Iberoamérica e Gerety Awards, e participou de projetos ganhadores de premiações como Cannes Lions, Effie Awards e The One Show. Foi, ainda, indicada a melhor profissional de planejamento no Caboré 2021.  

 

Que características ou habilidades você considera essenciais em uma mulher na liderança da área de estratégia? Como você as desenvolve e as alimenta regularmente?   

Minha crença em liderança está associada a trazer a perspectiva de onde desejamos chegar e os valores que desejamos manter com as pessoas, e que isso seja compartilhado entre elas. Na área de estratégia, é preciso trazer pilares claros sobre como a disciplina pode ajudar no crescimento das marcas, na transformação dos negócios e no impacto nas pessoas. E, a partir daí, dar autonomia e condições para que as pessoas desenvolvam e criem da melhor maneira. Para isso, acredito ser necessário ter grande capacidade de escuta das pessoas e do mundo, equilibrar momentos de disciplina e flexibilidade, e sempre estar aberta ao aprendizado, ou seja, é preciso saber que não sabe.  

Eu desenvolvo essas habilidades mantendo conversas frequentes com o time, com temas livres. Também me mantendo curiosa sobre novos assuntos e me aprofundando sobre as temáticas de sempre, abrindo espaço para os acasos. Não diria que nenhuma dessas características é específica de uma mulher na liderança. A única habilidade extra que as mulheres acabam tendo que desenvolver é a resiliência. Paciência e constância para lidar com certas situações que expõem desafios estruturais que nossa sociedade e o mercado enfrentam. 

Qual é o seu maior desafio no dia a dia da estratégia e da gestão de pessoas? O que faz para encará-lo/superá-lo? 

Diria que são dois principais desafios. O primeiro é estar aberta para ouvir e compreender a diversidade de histórias, jornadas e valores que cada um traz, que são diferentes da minha, e entender como posso aprender e lidar bem com isso, de forma que haja crescimento mútuo. O segundo desafio é como atrair, manter e desenvolver talentos, respeitando as trajetórias de cada um, agregando para que cada uma delas consiga ampliar seu potencial ao máximo, mantendo sua essência. Não acho que haja uma resposta única para encarar esses desafios, e superá-los é um exercício diário e constante que faz parte do trabalho de gestão. Tento lidar com isso aprendendo a ficar confortável com esse desconforto. 

Você já teve algum tipo de sentimento de autossabotagem? Como lida com essa situação e que dicas dá para mulheres que se sentem assim nos projetos, áreas e lugares em que atuam?   

Eu não saberia dizer se era um sentimento de autossabotagem ou de insegurança causada pelo que estava ao meu redor. A maneira como cresci no ambiente de trabalho me obrigou a ser prática e ter que ignorar muitas coisas para seguir evoluindo. Mas sei que muitas pessoas sofrem disso. Diria que a melhor maneira de lidar com esse tipo de situação é estar consciente disso, entender os “gatilhos” e criar sua rede de apoio – pessoas que sempre estarão lá para te ouvir, te apoiar e torcer por você. 

Quais mulheres inspiradoras você segue, lê e observa? Como elas te inspiram?   

Sigo, leio e fico atenta a mulheres que trazem uma perspectiva diferente da minha, uma realidade que difere da minha, com outras vivências e experiências. Hui Jin é uma mulher coreana-brasileira estrategista, mas nos últimos anos tem expandido seu campo de atuação: curadoria, artes, filosofia e tudo o que não dá pra ser definido. Fora da publicidade, acompanho a Giovanna Heliodoro (@transpreta), a Veronica (@faxinaboa) e a Winnie Bueno, que têm trabalhos incríveis e conectados à suas experiências pessoais. 

O que achou do episódio que envolveu a falta de diversidade racial entre os nomes da primeira lista dos jurados brasileiros de Cannes, em que houve mudança efetiva recente, após manifesto dos profissionais? 

Achei que foi uma grande lição para nós de como confrontar realidades e gerar mudanças. A mensagem reconhece o desafio do contexto e as evoluções que foram realizadas nos últimos anos, porém, convida à reflexão e ao reenquadramento da mentalidade e dos parâmetros da instituição. Foi também uma grande lição de mobilização e organização conjuntas, de pessoas que têm movido a indústria pra frente. 

Quais conteúdos ou ferramentas você recomendaria para uma estrategista que quer dar uma turbinada na carreira?   

A minha ferramenta favorita é a escrita, por isso recomendo a leitura e o estudo do livro “Como escrever bem“, que é um manual para ajudar a pensar, ouvir e escrever melhor. Eu acho a escrita uma das mais fundamentais ferramentas para organização dos pensamentos e investigação de hipóteses. A segunda ferramenta que eu recomendo é caminhar sem rumo. Eu estou lendo um livro da Rebecca Solnit chamado “Wanderlust”, que fala sobre como caminhar permite que a gente esteja presente no mundo sem estar ocupada com ele. Nos traz liberdade para pensar sem ficar completamente perdida nos pensamentos. 

Por fim, tem dicas de séries, filmes, livros e/ou músicas que consumiu recentemente e a fizeram refletir sobre a condição e o papel das mulheres?   

O livro “Irmã outsider“, da Audre Lorde, que me fez refletir sobre a condição do corpo feminino deslocado e sobre como lidar com situações que trazem desconforto e confiar no que sentimos, e não apenas na racionalidade. E a música que mais me tem feito pensar e sentir é a da Lizzo, especialmente Tiny Desk, que é um show de alegria e talento. 

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