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Perfil

Alana Leguth: “O funk entrou cedo na minha vida e virou profissão”

A liderança feminina da produtora KondZilla criou o HERvolution para dar protagonismo e acolhimento às mulheres da música urbana

Michelle Borborema
27 de julho de 2022 - 14h26

Alana Leguth é sócia-diretora da KondZilla e idealizadora do HERvolution, projeto criado para dar espaço e protagonismo às mulheres da música urbana (Crédito: Arthur Nobre)

A gravadora KondZilla é um marco na indústria do funk. Os números falam por si: são 1.600 clipes lançados, quase 66 milhões de inscritos e mais de 36 bilhões de visualizações no canal do YouTube, o que torna o perfil na rede social o maior do país em todas as categorias. Por muito tempo a produtora de músicas, videoclipes, séries e publicidade foi sinônimo do seu fundador, Konrad Dantas, o que o leva a ser chamado de “KondZilla” até hoje. No último ano, no entanto, outra liderança por trás da gravadora entrou em evidência: Alana Leguth, 34 anos, mulher de Konrad e sócia-diretora da empresa. 

“Por muito tempo eu não quis me expor. Meus perfis nas redes sociais eram fechados para o público. Sou muito tímida, mas sempre estive ali com meus direcionamentos. Deixava os holofotes para o Konrad porque não queria e não sabia lidar com isso. Também não fazia questão e não via necessidade. Mas, com a criação do ‘Her’, tive que começar a aparecer”, conta. 

Alana se refere ao HERvolution, projeto idealizado e liderado por ela na KondZilla para dar espaço e protagonismo a mulheres da música urbana, que inclui estilos como o funk, o rap e o trap. No começo, a proposta era impulsionar e unir produtoras, compositoras e intérpretes femininas para participarem de faixas colaborativas, os chamados feats musicais. Em menos de um ano, a iniciativa tomou proporções maiores: rendeu um programa semanal na RedeTV e o início de uma mudança cultural em torno da produção musical de mulheres do meio. Hoje, o projeto é também um selo musical, que inclui as artistas MC Taya, DJ Gaby Soares, MC Lianna, MC Lynne e Nathy MC. 

 

Alana Leguth: “Por muito tempo eu não quis me expor. Meus perfis nas redes sociais eram fechados para o público” (Crédito: Arthur Nobre)

O selo tem também o propósito de criar um ambiente mais acolhedor para as artistas femininas, para que elas se expressem e desenvolvam seus talentos sem serem invalidadas ou desvalorizadas por características físicas. Alana também espera, com o projeto, desenvolver um ecossistema musical mais rico e diverso, sobretudo no funk. Infelizmente, essas premissas surgiram de um episódio com a MC Lynne no segundo feat da produtora. No caminho para a gravação no estúdio, ela sofreu assédio num trem. 

“Ela me mandou um áudio para dizer que ia se atrasar porque estava indo para a delegacia. Eu nem pensei duas vezes: fui atrás dela para dar apoio e fiquei até o final. Ela quis gravar a música sobre isso no mesmo dia, e colocamos o áudio que ela me enviou na gravação”, lembra Alana. Segundo ela, a experiência, que deu origem à música e ao videoclipe ”Assédio no Vagão”, a fez perceber que seu projeto ia muito além das gravações e representava também uma rede de apoio para as artistas. 

“Já ouvi muitos relatos de cantoras e artistas que foram assediadas no trabalho por produtores musicais, por exemplo. Então percebi que era importante oferecer a elas segurança e conforto de saber que não ficariam sozinhas com homens, que estariam com outras mulheres”, conta. 

Mas a cultura do machismo e do assédio no meio musical não é exclusiva do funk, diz Alana. Envolve a indústria musical como um todo, a começar pela maneira como as artistas femininas são exploradas. “Elas precisam ser vistas pelo talento delas. Claro, a imagem conta, mas o foco deve ser no estilo e na personalidade, e não no padrão estético e no corpo. As pessoas precisam olhar para as artistas pelo que elas entregam no palco e no estúdio, pela música delas. Mas infelizmente isso ainda é um problema em todas as áreas.”

DA FARMÁCIA AO FUNK 

Se engana quem imagina que Konrad apresentou o funk à Alana. Ela nasceu e foi criada em Santos, berço do chamado “funk consciente” ou funk de relato, música que surgiu na Baixada Santista nos anos 2000 e contava a realidade das favelas nas letras. “Meu primo morava no Rio de Janeiro e trazia muito o funk de lá para gente. Quando o funk veio para a Baixada, eu escutava muito, porque sou a mais nova de dois irmãos e queria fazer tudo o que eles faziam, e eles ouviam funk. Então o funk entrou cedo na minha vida, com 12 anos, e desde então não saiu mais, virou minha profissão.” 

 

Alana nasceu e foi criada em Santos, berço do chamado “funk consciente” ou funk de relato, música que surgiu na Baixada Santista nos anos 2000 (Crédito: Arthur Nobre)

Apesar do amor pela música desde cedo, a paixão por cuidar de pessoas a fez cursar farmácia, o que a levou ao estágio em saúde pública em comunidades do Guarujá, em São Paulo, onde atuou por dois anos. Para ela, o período mudou sua vida. “Arrisco dizer que foram meus melhores anos. Aprendi sobre a profissão, mas também sobre como lidar com as pessoas. Entendi sobre ter tato e cuidado com diferentes seres humanos, e isso me deu bagagem para a vida.”

Alguns anos depois, o suporte e a liberdade que seus pais deram a deixaram segura para correr atrás do que queria fazer. Aos 19 anos, conheceu Konrad por amigos em comum e não demorou muito até decidir enveredar pela jornada musical com ele.  

“Quando nos conhecemos, eu estava no final do primeiro ano da faculdade e ele oscilava entre o trabalho em uma faculdade de Santos e outro, em uma pós-produtora de São Paulo.” Konrad ainda não trabalhava com videoclipe ou funk quando foi convidado por um amigo de Santos para dirigir o DVD da banda Charlie Brown Jr. Foi um sucesso entre o público, e um dos últimos shows do grupo. 

Em seguida, o produtor dirigiu o videoclipe do MC Primo, da Baixada Santista. Não demorou para outras oportunidades com MCs surgirem e Alana embarcar no negócio em apoio ao companheiro. “Ele me disse: ‘cara, acho que é isso que vou fazer da minha vida. Você me apoia?’. Eu disse: ‘100%, vamos nessa ver no que dá’. E aí começou tudo.” Ela ainda cursava faculdade e se manteve no estágio até terminar e se mudar para São Paulo, para tocar a KondZilla mais de perto e gerenciar toda a área de licenciamentos da marca, que tem lançado coleções de roupas, acessórios e itens colecionáveis. Konrad foi para a capital paulista pouco antes. Mas a adaptação não foi fácil. 

“Foi muito difícil, pois sempre morei na praia. Me ver sem horizonte de repente foi sufocante, mas busquei refúgios, como o esporte. No primeiro ano na cidade me afundei no trabalho de uma maneira muito negativa, porque passava horas trabalhando e não rendia muito. Então decidi voltar a cuidar da minha saúde e tudo foi se encaixando.” 

Alana sempre encarou o esporte como uma “válvula de escape”. O crossfit a ajudou no enfrentamento de problemas de autoimagem, mas também foi crucial para sua saúde mental. “No começo eu não me sentia segura com meu corpo, então ficava ainda mais acuada. Sabia que quando frequentava eventos como esposa do Konrad, as pessoas não olhavam para o que eu fazia, mas para o que eu vestia, minha maquiagem, meu cabelo. Isso criou uma barreira para mim que com o tempo consegui descontruir. Acho que a maturidade também ajuda, né? E assim fui construindo minha segurança.” 

Quando fala sobre como é fazer negócios com o marido, ela diz que requer muita paciência, mas hoje leva com tranquilidade. “Cada um tem sua área de atuação, mas a gente se ajuda quando o outro pede. Ele não se intromete no HERvolution e eu não entro na KondZilla, mas a gente dá toques quando vê que há algo muito fora do eixo. Com tato e sabendo conversar, dá tudo certo. São 12 anos juntos, então já sabemos lidar com o outro. No começo era uma loucura.” 

FUNK, MACHISMO E ALIADOS 

Para Alana, o principal desafio das mulheres no mercado do funk ainda é o machismo, mas ela tem esperanças. “Ele está enraizado na nossa sociedade há milhares de anos, então dizer que construímos um ambiente sem machismo seria muita ingenuidade. Mudar isso é um trabalho de formiguinha, mas acho que ter um selo voltado apenas para mulheres da música urbana com a estrutura da KondZilla é um passo muito importante. Temos uma cultura de apoio, inclusive entre homens e mulheres.” Desde 2017, a KondZilla tem um compliance de não fazer apologia a sexo e violência, não usar palavrões nas letras e não objetificar a mulher.

 

Para Alana, o principal desafio das mulheres no mercado do funk ainda é o machismo (Crédito: Arthur Nobre)

Do começo do HERvolution para cá, a empresária diz que há mais feats entre mulheres hoje. “Vejo mais artistas trabalhando entre elas e fico extremamente feliz, porque é uma maneira de o mercado deixar a rivalidade feminina de lado e seguir nesse movimento de união que tem acontecido. Vemos muito isso entre os homens no funk, há muito feats masculinos acontecendo. Ter isso entre artistas mulheres é muito importante.”

Alana diz que nos últimos anos tem deixado de lado as opiniões do mercado e passado a ouvir mais a sua intuição. Na verdade, depois de um longo período por trás da KondZilla, ela parece ter decidido usar todo seu conhecimento, experiência e relacionamentos na indústria da música urbana para fortalecer as mulheres do funk, incluindo ela mesma. “Tudo começou a dar mais certo e meu trabalho passou a ser mais reconhecido quando comecei a acreditar mais em mim.” 

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