Amira Ayoub: a força de uma executiva feminina muçulmana

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Amira Ayoub: a força de uma executiva feminina muçulmana

A nova head de marca do Grupo Pão de Açúcar fala sobre sua carreira e os obstáculos culturais e familiares que enfrentou


14 de junho de 2024 - 10h16

Amira Ayoub é head de marca do Grupo Pão de Açúcar (Crédito: Arthur Nobre)

Filha de pais libaneses que imigraram para o Brasil em busca de uma vida melhor, Amira Ayoub representa, ao lado da irmã e do irmão, a primeira geração da família nascida no Brasil. Isso fez a nova head de marca do Grupo Pão de Açúcar enfrentar alguns desafios que moldaram sua vida e carreira. 

Desde cedo, Amira percebeu as diferenças culturais entre suas origens e o lugar onde nasceu. Enquanto mulheres ocidentais achavam natural estudar e seguir uma carreira, essa não era a realidade de muitas famílias imigrantes, incluindo a dela. “Vi amigas de infância que não tiveram oportunidade de frequentar uma universidade. Estão casadas, com filhos e usam burca. Não que isso seja uma penitência, mas essa não era a escolha que os meus pais queriam para nós. Eles queriam mais.”  

Apesar de sua mãe ter sido prometida em casamento aos 14 anos, seus pais vislumbraram um futuro diferente para seus filhos ao se mudarem para o Brasil. Com o apoio incondicional dela, que sempre incentivou os estudos, a executiva inicialmente sonhava em ser juíza ou delegada, pois acreditava que a carreira em Direito a levaria a uma posição de liderança. Chegou a estudar na área, mas logo percebeu que não era o caminho certo. 

“Eu queria liderar, ver a mulher no poder, e enxergava o curso de direito como algo que pudesse me levar ao que eu gostaria de ser. O tempo se passou e, com 18 anos, comecei a prestar o curso. Mas não gostei porque não tinha nada a ver comigo.” 

Surpresas da carreira ocidental  

Diante da necessidade de se sustentar — o pai de Amira parou de pagar suas contas logo cedo para acelerar a independência da filha –, ela encontrou uma oportunidade inesperada por meio de uma amiga, Sofia, cuja mãe trabalhava na Editora Abril. “Ela falou que a mãe coordenava o espaço de Riviera de São Lourenço, da Veja São Paulo. Isso há 15, 16 anos atrás. ‘Você quer trabalhar como promotora?’, ela me perguntou. Falei ‘claro que quero’.” 

O trabalho como promotora de eventos durante o verão foi um divisor de águas na vida de Amira. “Eu, filha muçulmana, árabe, que nunca podia sair nem para ir para a balada, vi isso como uma libertação. Ficaria trancada com pessoas da minha idade e ainda ganharia dinheiro para isso. Era como estar no céu, então fui superfeliz.”  

Mais do que um simples emprego, a experiência na Editora Abril abriu os olhos de Amira para o mundo do marketing e da comunicação. “Eu via aqueles vice-presidentes, diretoras de marketing, todo mundo organizando aquele espaço, e pensava ‘gente, que mundo interessante é esse?'” 

A paixão pelo marketing cresceu e Amira decidiu seguir carreira na área, embora seu pai não a incentivasse. “Ele dizia que não dava dinheiro. Como comerciante, para ele, o que dava era ser médico, engenheiro ou advogado.” Mesmo assim, ele esteve ao lado dela na matrícula da faculdade, embora vestido de preto. 

“Ele não deu a opção de minha irmã, hoje psicóloga, ou eu herdarmos o negócio dele como comerciante. Não que seja o caminho mais fácil. Então ou íamos para a rua, ou íamos para a rua. E, hoje, olhando para o meu irmão, vejo que foi a melhor coisa que fiz. Ser comerciante não é fácil. Sou uma publicitária CLT muito feliz.” 

Nos primeiros anos de curso, Amira conseguiu estágios e fazia bicos como freela de promotora, entre o Salão do Automóvel e outros eventos. Passou a impressionar o pai, que não esperava grandes feitos na trajetória profissional da filha. Foi logo efetivada a analista júnior na Novelis, fábrica de alumínio, e em seguida migrou para outras empresas, incluindo a agência de relações públicas Edelman.  

Em todo o percurso, ela diz ter levado a bandeira de ser uma mulher árabe e muçulmana, até chegar à Latam, onde ficou por 10 anos e se consolidou no mercado como uma grande liderança de marketing. 

Liderança humana e eficiente

A trajetória de Amira mostra como determinação, apoio familiar, mesmo com adversidades, e a capacidade de aproveitar as pequenas oportunidades é uma equação importante para uma carreira sólida. Hoje, a executiva é conhecida como “A Amira da Latam” e inspira outras mulheres a superar barreiras e perseguir seus sonhos. 

Mas o reconhecimento que ela passou a ter cada vez mais no mercado foi, justamente, o que também a motivou a buscar um novo desafio. Depois de anos no posto, ela aceitou a posição de head de marca no Grupo Pão de Açúcar (GPA), onde espera contribuir com sua experiência e diversificar mercados.

“Levo para o GPA essa liderança humana que construí, focada num time de alta eficiência. Acho que eles me contrataram por isso. Varejo é um negócio dinâmico, assim como aviação. Você não pode fazer projetos com seu time para daqui a alguns anos. Precisa resolver para ontem. E como você mostra resultado para ontem? Tendo uma relação muito transparente e próxima das pessoas que estão no seu dia a dia, para que elas confiem fielmente em você.”  

Vou levar para o GPA essa liderança humana que construí, focada num time de alta eficiência“, diz Amira (Crédito: Arthur Nobre)

Ao assumir a cadeira de marca do grupo, Amira tem o desafio de resgatar o “lugar de gente feliz” que por muito tempo representou o Pão de Açúcar. Assim como fez com a Latam, a executiva quer trazer de volta a paixão dos brasileiros pela marca. “Há um trabalho lindo para ser feito e estou muito animada.” 

Da comunicação interna ao topo do marketing 

Amira iniciou sua carreira na Latam em 2014. Mesmo entrando por uma porta que não era a de sua preferência, ela teve visão ao aceitar uma vaga na comunicação interna. Seu objetivo era claro: chegar ao topo do marketing. “Queria ser gerente, head e um dia CMO ou vice-presidente de marketing.” 

Na Latam, Amira não apenas sobreviveu, mas prosperou. Ela foi peça-chave na fusão das marcas e na comunicação corporativa, ajudando a companhia a navegar pelas complexidades de se comunicar com dezenas de milhares de funcionários. Sua determinação e capacidade de enxergar oportunidades onde outros viam obstáculos foram fundamentais.  

Quando surgiu uma vaga para coordenadora de comunicação tática, uma posição pouco cobiçada, ela viu a chance de transformar a área e fez exatamente isso, marcando um grande ponto de virada em sua carreira. 

Um dos momentos mais significativos foi a campanha de Black Friday em 2017. Ao promover uma live com o apresentador e ator Otaviano Costa que vendia passagens a R$ 9,90, Amira inovou no setor de aviação, que ainda era bastante tradicional. A ação não apenas gerou um boom de vendas, mas também colocou seu nome em destaque na companhia e no segmento. 

Outro marco foi a primeira parceria da Latam com o Rock in Rio, em 2019. Mesmo com recursos limitados, ela soube negociar uma permuta para ser a companhia aérea oficial do evento, projetando a marca de maneira significativa no cenário de entretenimento brasileiro. Seu case conquistou o aval da alta direção, mostrando que criatividade e visão estratégica podem superar limitações financeiras. 

Mas foi durante a pandemia que Amira enfrentou um dos maiores desafios de sua carreira. Com a Latam em recuperação judicial e no retorno da licença-maternidade de sua filha Sophie, hoje com 3 anos, ela foi promovida a head de marketing em um momento crítico. Seu trabalho focou em resgatar o orgulho de ser brasileiro e reconectar a marca com seus consumidores.  

“Criamos uma marca para se conectar de novo com o consumidor, adaptando-nos às mudanças pós-pandemia e adotando uma abordagem mais digital.” 

Novo capítulo no GPA 

Após uma década de conquistas na Latam, Amira embarca agora em uma nova jornada no Grupo Pão de Açúcar. Sua passagem pela Latam terminou com um projeto de grande impacto no Big Brother Brasil 24, onde a marca se destacou como a uma das mais mencionadas, mesmo com um investimento menor comparado a outros patrocinadores.  

“Isso mostra que você não precisa ter a maior grana do universo e ser a marca que mais vai investir. Sempre coloquei esse desafio para mim e para o time que trabalha comigo: vamos fazer o projeto e sermos os melhores, com muita eficiência. Não é fazer marketing por fazer, mas fazer de um projeto a sua melhor história.” 

Amira Ayoub deixa um legado de inovação, resiliência e liderança na Latam, pronta para enfrentar novos desafios e continuar sua trajetória no Grupo Pão de Açúcar. Sua história é uma celebração das conquistas de lideranças femininas improváveis e uma inspiração para mulheres que buscam fazer a diferença, mesmo diante de dificuldades que possam enfrentar e das barreiras culturais e regionais que apareçam. Algo que, por sinal, a executiva tem olhado com carinho. 

“Sinto que devo olhar para as meninas árabes e muçulmanas. Preciso fazer algum movimento para ter mais contato com elas e deixar sementes. E não falo nem apenas no Brasil, porque aqui é normal que as pessoas se aculturem ao modelo brasileiro. Mas quantas meninas não podem ter o que sonham lá fora? Por que você acha que a Malala faz tanto sucesso? Porque ela é o sonho vivo de muita gente.” 

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