Algumas coisas que eu espero de Cannes em 2017

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Diário de Cannes

Algumas coisas que eu espero de Cannes em 2017

Mais do que peças exaltando a igualdade, o mundo precisa mesmo é que as pessoas sintam vergonha de tentar vender qualquer coisa tratando mulher como se fosse uma peça de carne


9 de junho de 2017 - 11h33

Em 2016, duas coisas chamaram uma enorme atenção no Festival. Mas não exatamente nas peças inscritas e premiadas. Duas coisas de naturezas completamente distintas, que pareciam fadadas a explodir neste ano. A primeira delas é o VR. Tinha um esforço monstruoso por parte da indústria e estava em toda parte: propaganda, quiosques de degustação, palestras, stands, uma fúria.

Apesar dos dois Grand Prix atribuídos ao filme “The displaced”, do The New York Times, achei a participação do VR muito aquém dos esforços da indústria para vender a tecnologia. Explico. No filme, o NYT fez um uso bruto e esperto do VR, que passou ao largo da maior dificuldade que o meio apresenta para os criativos: como estabelecer um storytelling quando a câmera não aponta para lugar nenhum e o espectador fica solto para olhar o que quiser (e frequentemente fica à deriva). Na peça do NYT, era uma vantagem, porque jogava o espectador em lugares conflagrados e isso tinha um poder imersivo enorme. Mas o uso em propaganda ficou devendo. Não que não esteja acontecendo. Neste ano, emplacamos um VR do Hyundai Creta, produzido aqui pela Z+, que ficou entre as peças mais vistas do YouTube. Mas a coisa ainda tem muito o que evoluir. Com tudo isso, eu devo dizer que espero ver coisas em VR que transcendam a mera curiosidade do meio e apontem novos caminhos. E as promessas são boas.

O segundo trending topic anunciado em 2016 – na verdade, um movimento mundial –, que deve aparecer num tsunami de peças de todos os tipos, é o sexismo e as muitas causas ligadas ao feminismo. Embora presente em peças premiadas, nenhuma delas teve a contundência da palestra da Madonna Badger e a ação #womennotobjects, que teve o mérito de evidenciar o quão grotesco é o uso que a propaganda ainda faz da mulher.

2016 foi um ano inteiro em que o feminismo explodiu como tema, causou na festa do Oscar, nas redes sociais, em manifestações de todos os tipos. O Festival, neste ano, baixou resolução (óbvia e atrasada) de banir peças sexistas – o que ainda deve evitar algum vexame, como o que aconteceu no ano passado. Acho que, oportunismos à parte, é uma questão que finalmente está sendo levada à sério nas agências. Mais do que peças exaltando a igualdade, o mundo precisa mesmo é que as pessoas sintam vergonha de tentar vender qualquer coisa tratando mulher como se fosse uma peça de carne. É muito feio.

De resto, minha profunda admiração ao festival pela escolha do Burger King como anunciante do ano. Um anunciante corajoso, inteligente e que entendeu como nenhum outro como surfar nas redes sociais cativando as pessoas, emocionando, abraçando temas contemporâneos e transformando sua comunicação em assunto.

E só para finalizar, o filme do Channel Four para os Jogos Paralímpicos é a maior barbada em Cannes desde Whassup, da Budweiser, em 2000. É o filme mais emocionante e memorável que eu me lembro de ter visto na vida.

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